Início A atenção

SOBRE A ATENÇÃO

(transcrição de uma fita gravada de Silo.Setembro de 1989)

Em uma época de forte hipnose como esta, a atenção é uma arma formidável para contra-atacar a influência do sistema, para descobrir seus pontos débeis e elaborar os pontos de vista e os posicionamentos que podem esclarecer às pessoas para se oporem ao sistema. Nossa gente tem que fazer um pequeno esforço nessa direção. É um grande poder o conhecimento de si mesmo. Aumenta a reversibilidade, diminui a hipnose, permite decidir.


Eu  escuto o imbecil liberal, eu vejo suas proclamações televisivas disfarçadas de ideologia e estou atento. Eu sei que estou atendendo; e o problema da atenção dirigida, o problema para eles, é que não perco minha referência, não sou sugado pelas solicitações sensoriais que são apresentadas a mim.


Conhecemos um tipo de atenção que é a atenção cotidiana. A atenção que vai a direção dos estímulos. Aparece um estimulo, eu atendo. Faço soar um gongo e o cachorro vai em direção a comida. Movo-me em direção as coisas segundo minha atenção for solicitada por algum estimulo sensorial.


Conhecemos outro tipo de atenção. Há muitos estímulos, mas eu vou àqueles estímulos, dentre todos os existentes, que coincidem com meus interesses. O primeiro caso é o de uma atenção simplesmente solicitada por estímulos, e é uma resposta maquinal. Faço um ruído e as pessoas seguem. O segundo caso, onde o sujeito tem seus interesses e tudo isso, parece ser uma atenção algo mais consciente. Mas é uma atenção igualmente mecânica. Mesmo que não venha a mim o estímulo e que a coisa parta de mim para o estímulo, essa atenção está levada, de todas as maneiras, por essas aspirações, essas condutas que nem sequer foram revisadas. O sujeito nem sabe por que tem tais interesses. E por que segue em direção ao estímulo, porque assim está armado, assim está condicionado a responder ao estímulo. Muito interessante.


A fonte é diferente, de orientação da atenção. A primeira é uma atenção animal, solicitada por estímulos externos, e a segunda é uma atenção verdadeiramente  humana, que é ir para o outro. Mas por interesses. Observem que tanto em um caso como no outro, não se está movido por um genuíno controle, por um saber o que se está fazendo, em nenhum dos dois casos. Há diferenças entre uma e outra, mas está claro que não se sabe o que se está fazendo nem em uma e nem na outra.

Conhecemos estas formas de atenção. Conhecemos o que é uma atenção dividida, por exemplo. Conhecemos o que é estar, ao mesmo tempo, atendendo a dois estímulos. Essa atenção na verdade não é muito freqüente. Salvo em alguns ofícios, em algumas ocupações, ou em exercícios. Há certa capacidade para atender a duas coisas simultaneamente. Às vezes o ofício exige isso.


Dir-se-á: "Bom, depois isso se mecaniza e vemos a um cara que dirige um bus, recebe a grana, corta o bilhete, dá o troco, muda a marcha, xinga o de atrás. Isso se mecaniza. Mas há ofícios em que essa prática, essa atenção está dividida. Por experiências, por práticas, por exercícios, conhecemos esse trabalho de atenção. Há outro tipo de atenção que é a atenção dirigida. Nós podemos fazer muitas práticas ou experiências e a única coisa que vamos conseguir com essas práticas é compreender que a atenção é muito elástica, que admite diferentes formas, e vamos poder testar a própria atenção. Mas não podemos colocar essas práticas além do que justamente são: práticas ou uma comprovação.


Não podemos fazer isso (ir adiante com a prática), porque se pretendemos que o exercício de uma forma de atenção, por força da pratica sustentada, alcance resultados de transformação, o que vai se produzir é uma fadiga. E vamos colocar-lhe empenho no dia 1, no dia 2, no dia 3, menos no dia 4, menos ainda no dia 5 e "sayonara". O que nos exige muito esforço e não podemos localizá-lo em faixa para já trabalhá-lo sem muito esforço, é algo que não é possível sustentar, porque não obtemos benefícios proporcionais ao esforço investido.


Estes testes são de interesse porque nos permitem compreender os segredos da atenção. Uma das coisas que a atenção dirigida nos permite compreender é que a reversibilidade joga com maior fluência. Na medida em que estamos conversando e estamos atentos ao que estamos dizendo, não perdemos nosso centro de gravidade. Damos-nos conta que é bastante difícil que “engulamos a isca”. Porque poderão nos dizer isto ou aquilo, mas nosso olhar está claro. Não somos tão suscetíveis nem vulneráveis à pressão de grupo ou situações, nem à apresentação de imagens de papelão. Porque temos nosso centro em nós mesmos.

No momento certo, comentou-se que uma das características da hipnose era a perda de referências do sujeito e de sua capacidade de comparação. Essa perda da capacidade de comparação fazia com que o objeto estímulo se transformasse em algo central, não se pudesse equiparar a nada, e ao não haver comparação se caía nesse campo de influências. Isso acontecia também nos sonhos. E acontece não só em hipnoses. Acontece na vida cotidiana. A sugestão da imagem é muito forte, a sugestão do momento em que se vive, do meio social, a sugestão da imprensa, da TV, atuam muito fortemente. Não há com o que comparar, em todos os lados se encontra o mesmo, há determinados valores estabelecidos, tudo isso é aceito, nada disso é pensado, isso é o que acontece, isso é o que ocorre, você está submetido a esse grande campo de influências e sua atenção termina finalmente indo nessa direção. E aí estamos presos nessa hipnose do sistema, coisas assim conversamos no momento certo.


A capacidade de reversibilidade e de autocrítica diminui consideravelmente nas populações. Se há pouca capacidade de crítica é porque não é possível comparar coisas; por isso não é possível fazer. E se há pouca capacidade de autocrítica é porque não se podem comparar coisas dentro de si mesmo. Quem não se conhece a si mesmo não pode comparar coisas em si, está diretamente inabilitado para a autocrítica. Não se conhece, não pode fazer autocrítica.

Talvez ache que está se autocriticando, como no caso desses cidadãos que dizem: "Eu confesso que tenho que fazer uma autocrítica. Sou um filho-da-puta". Quando dizem essas coisas, na verdade não estão comparando distintas coisas que acontecem com eles. Estão utilizando o olhar do outro para lançá-lo sobre si mesmos. A autocrítica deles não tem nenhum valor. É como os criticariam outros, eles estão dizendo isso que dizem os outros de si, como elaboração própria.

 Se não há autocrítica e não há crítica, não há reversibilidade. Isto é, não se tem a aptidão para sair desse campo de influências externas provenientes do sistema.
Não têm autocrítica porque não têm conhecimento. (...)

Põe-se em jogo a localização de si nestes fenômenos. Essa forma de atenção dirigida, se nós a apresentamos em termos de prática e de como gera-la, vai terminar em um forçamento, não nos vai dar tempo a que tenhamos resultados e vai acabar saindo mal.
Se nós lembrássemos alguns momentos interessantes em que passeando nossa atenção fizemos coisas sem perder consciência de nós mesmos, quando sentimos uma grande potência interna, sem esforço, isso nos ajudaria mais que isto de propor-nos manter um tipo de atenção.

 Basta com que agora mesmo, enquanto estamos falando (com suavidade, com suavidade, sempre com suavidade), enquanto estamos falando atentos, atentos ao que se está dizendo, atentos às outras pessoas, basta com que nos sintamos localizados  onde estamos para que notemos um olhar bastante mais claro. Não é uma proposta compulsiva, não é um esforço por manter a atenção. É, simplesmente, um sentir-se centrado, aqui onde estamos, conversando, sabendo que conversamos, discorrendo em torno de certos temas, estamos pensando enquanto discorremos neles. Se mantivéssemos essa atitude (não essa prática nem esse forçamento), se mantivéssemos essa atitude e alcançássemos registros de maior potência e frescor na intermediação da imagem, acho que poderíamos tirar bastante proveito desse comportamento mental.


Estamos falando de um comportamento mental diferente. Que, sem dúvida, marca diferenças com o comportamento mental habitual que observamos a nosso ao redor. Nós observamos ao nosso ao redor um comportamento mental muito determinado, muito pouco manejado, pouco claro e, certamente, muito pouco potente. Parece que podemos assumir um comportamento mental, que é também conduta, um comportamento mental que tem seu ganho nisto da reversibilidade, da crítica, a autocrítica e da potência no pensar. Isto não quer dizer que a gente não vai entrar de cabeça, não é mesmo? Frente a determinados estímulos, ante determinadas coisas... a gente entra de cabeça. Não. O que digo é que se de algum modo pudéssemos transformar em um valor psicológico isto de que é mais interessante estar atento, atento ao que efetivamente se passa, atento ao que se faz, atento ao que se diz, ter isso como um “tin-tin” de fundo... Se transformássemos em um valor isto que é bom: uma atitude atenta, estar centrado frente às coisas, acho que ganharíamos. Já se o propusermos como prática ou como disciplina, ou como forçamento... vamos ter problemas.

Se o colocamos assim, como atitude, acho que vamos registrar um interessante potencial, uma maior claridade de idéias, um eixo muito crítico, muito crítico. Acho que isso é inteligência. Há uma conduta mental que se pode assumir, é conduta também.
E se entro de cabeça, bom, entro de cabeça, mas eu tenho esse valor. É preciso ter uma posição mental atenta. Parece-me muito difícil se você está bem posto em sua atenção, me parece verdadeiramente mais difícil que você esteja mal por climas, por confusões, por coisas que estão operando mecanicamente sobre ti. Parece-me mais difícil que se simplesmente você está solicitado pelos estímulos ou vendo se isso que se está tratando tem a ver contigo ou não. Se tiver a ver contigo, vai; se não tem a ver contigo, você olha para a minhoca na parede. Você está ferrado, você está submetido a um campo de influências do caramba. Seja do sistema ou seja de teus bafos (climas), você está com problemas.


Não estou falando de coisas que sejam muito fáceis, mas são suaves.
Cada um em algum momento deve ter —sem dúvida que insistindo e experimentando com a atenção— deve ter registrado em algum momento de certa postura atencional, deve ter registrado essa clareza, essa potência. Têm que havê-la registrado. Se o encaram como prática, haverá dificuldade. Se vão fatigar... e finalmente vão abandonar, não vai ter nenhum sucesso.


Eu reparo muitas formas de atenção. Há uma, quase animal, que depende dos estímulos externos. A outra atenção que tem a ver com os interesses, interesse que ao mesmo tempo a gente não sabe nem de onde vêm, nem por que vai... é um bólido lançado...¡Que digo, um bólido!... Não, uma bola de barro... Aí vou eu, um, uh, uh, uh, Que atento que vou!... e não perco detalhe, porque aí está o interesse. Mas, não tenho idéia do que estou fazendo!!... Bom, este é outro tipo de atenção.

Há atenções divididas e há atenções dirigidas… (não se entende na fita) … cujo centro de gravidade é o olho de quem olha, é o olhar, é suave, é interessante, crítica. E entre tantos registros, há um registro de potência interna.

 Digo que essa conduta mental produz um funcionamento mental diferente, entre essa pessoa que está colocada dessa maneira e o resto das pessoas que põem sua atenção mecânica. Parece-me evidente que têm um funcionamento mental diferente. Eu levaria em conta esta sugestão, ainda quando seja para criticá-la, para discuti-la, para dar-lhe voltas. Levaria em conta esta sugestão em torno da atenção dirigida. Uma atenção que a sustentando sem esforço te põe mais claro e tem seus registros mais interessantes, mais potentes. Olhem, que é suave.


Pergunta: Há um registro de disponibilidade interna também?


Sim. Você se interessa por qualquer bobeira, parece inadmissível; é inadmissível para qualquer pessoa razoável. Vem um filho-da-puta e te fala de uma mosca, e tu aí atento. Sabendo o que faz, você está em outra. Sim, muito disponível, contanto que esteja em marcha essa atenção. Sim, é uma forte disponibilidade interna. Não, as pessoas razoáveis… as pessoas estereotipadas, desenhos de pessoas, não têm disponibilidade, a têm só para certos temas que estão vinculados a seus interesses...

Nesse sentido, a atenção é muito disponível, tudo é muito interessante porque é a atenção a que está trabalhando. Tudo é muito interessante. Certamente você tem seus interesses e suas coisas, mas sua atenção é muito, muito disponível, quase infantil.
Não é um mito, não é nenhuma lenda, é um comportamento mental diferente. E traz vantagens. Você pode estar xingando, você pode estar zangado, mas está localizado. Você está centrado.

Não há ação válida sem atenção válida. Como pode haver ação válida para um distraído? E de que está falando?, É um contra-senso. Isso não pode ser. Tudo isso, não.

Não pode haver ação reflexiva sem reflexão sobre o que se faz. A ação reflexiva é reflexão sobre a ação. Reflexão sobre a ação implica atenção sobre o que se está fazendo. De que ação reflexiva você está falando?, se você está movido por estímulos que não têm nada que ver com a re-flexão. Re-flexo, volta ao pensar. Se enquanto faz as coisas você não sabe o que está fazendo, se enquanto você pensa não sabe que você está pensando, se enquanto escuta não sabe que você está escutando; de que‚ ação reflexiva você está falando? Não sabe, pois, o que diz. Insisto em que é um comportamento mental, não natural. É uma intencional forma de colocar a cabeça. Bom, essa é uma forma de tocar os próprios mecanismos; sim, é uma forma de tocar os próprios mecanismos, disso se trata. Não é "natural" essa forma de pensar..., não é "natural" essa forma de sentir... Não, não é lógico, efetivamente. E isto está muito bem. (Risos).


Suavemente. Sem confusão, sem propor-se, sem forçar a mão. Mas considerando-a um valor interessante. O valor de assumir, entre tantos comportamentos que nos parecem válidos, entre tantas coisas que a gente diz: essas estão bem, essas outras estão como o cu, isso vale a pena, esse outro não; entre todos esses valores, também algo temos o que dizer sobre o comportamento mental. É um modo de ação. "Curto, porque não está movimentando cordas". Veremos, ­agora você verá! Também temos algo a dizer sobre o comportamento mental. Não só sobre o comportamento das mãos, das coisas...


Temos algo a dizer também sobre o comportamento mental. Estamos falando neste momento de um determinado comportamento mental. Mas não me faço nenhum problema moralizante, se me perco na coisa, me perco na coisa.

Eu te digo francamente que é muito menos suscetível à influência irracional dos estímulos externos. Te digo porque você está atento ao objeto e você está localizado em uma perspectiva que registra, que sente. E, sim.


Isso é tudo o que queríamos conversar sobre este tema da ação reflexiva, e como vai ser reflexiva se não se sabe o que está fazendo... Para saber o que se está fazendo é preciso estar minimamente atento ao que se está. A partir disso, a coisa da ação reflexiva pode parecer algo muito grande, mas nada disso, a ação reflexiva tem a ver com um tipo de atenção.


Tantas cagadas se produzem por estar desatento e não por outros motivos... Por erros desse tipo, por desatenção...

 Não, não sabemos muito mais disto, assim é que só isto o que podemos transmitir. Mas sim é genuíno o que dizemos. Que existe um registro diferente quando se valorizou convenientemente esta conduta mental que permite a quem olha, ou a quem faz, se ter por referência, mesmo que seja como perspectiva. Que saiba o que está fazendo, o que está dizendo, o que está escutando...

 É uma forma aperceptiva. Mas eu devo acrescentar constantemente a estas considerações, sempre o mesmo: Não transforme isto em prática! Converte-lo em todo caso, se é que te interessa, em um valor de um comportamento interessante de tua atitude mental. Não em uma prática de esforço.


Para dizer a verdade, quando você tiver muito sono, isto vai diminuir. Essa potência e essa coisa vão diminuir. Mas quando você estiver desperto, pois esteja desperto. Quando você está desperto, você deve estar bem desperto. Não estamos acrescentando muito às coisas que já sabemos. Em todo caso as estamos dando outro enfoque, dando outra volta, dada a experiência que temos nestes temas, não é? Fizemos muitas coisas... Vamos dando outra volta, voltando ao tema da atenção.

Por que não? É o tema fundamental do comportamento mental. E, para fazer o que com essa atenção? Para fazer o que você quiser. Que sei eu de teus projetos, tuas coisas, tuas atividades, teus interesses... Você verá...

Mas eu te digo: há um comportamento mental valioso, muito mais valioso que o comportamento mental dado, o que tenho. Essa é a reflexão que queríamos deixar sobre o tema da atenção.


Estivemos trabalhando com outras pessoas amigas, muito bem, e insistimos neste tema da atenção, da atenção reversível, da atenção desipnotizada, da atenção disponível, da atenção crítica, da atenção com referência à distância, do problema da sugestão do que se diz, do que se vê, da atenção posta no que a gente faz, da ação reflexiva.


Pusemos ênfase em que esse comportamento é mental e o consideramos, talvez erroneamente, como uma coisa valiosa. E não sabemos muito mais sobre este tema. E há registros, seguramente se vocês rastreiam em algum momento, verão que há registros muito potentes, de muita força, com esta graça da atenção.


Parece que se obtendo bons resultados não é preciso preocupar-se de nada porque as pessoas se entusiasmam. Na hora de obter bons resultados, parece que as pessoas gostam de andar assim. Como os pelicanos gostam de andar com uma pedra. Porque sentem um pesinho aqui ... Se não têm um peixe, pelo menos têm uma pedra. Sempre se encontra uma pedra se lhes abrimos a boca (risos). Então as pessoas gostam de andar assim. Bom, não nos levou tanto tempo este tema. Meia hora, uma hora. Mas me parece correto deixar esta sugestão. Porque pelo pouco que vimos, isto é de muito interesse. Convém, parece que nos fortalece, nos faz reversíveis, críticos, nos faz bastante reflexivos.

É um comportamento mental que pode chegar a ser um comportamento mental cotidiano. E não é o comportamento que observamos ao redor. Bom, isso é problema deles, não vamos chorar... E o forçamento não nos convém, não nos vai dar proveito, nos vai  decepcionar, nos vai fazer perder força e em pouco tempo vamos abandonar a prática.


Eu deixaria aí o tema. Chamamos a isso atenção dirigida, não esforçada, suave, compreendida por diferentes experimentos e talvez aceitada por registros favoráveis, não proposta como uma prática. Dizemos que entre outras coisas é atenção apercebida. E a englobamos no tema ‘conduta’. É uma conduta. Não há condutas desviadas, caramba? Claro que há condutas mentais! Acaso não há caras treinados, pelo motivo que for, em ver tudo mal? Não há caras cujo olhar é sempre negativo? Claro que sim, há caras que vivem nessa conduta mental!


Isto é interessante, se é que a gente se interessa pela liberdade.


Não acho que isso vá melhorar outras funções mentais suas, mas sim acho que isso pode te dar muita crítica, e muita prática em levar o olho para onde a gente quer que ele vá. Não te vai dar mais memória, não te vai dar mais agilidade no pensar, essas são características pessoais. Mas vai te dar reversibilidade. E o tema da ação reflexiva, é preciso levá-lo para esse tema. E o climão, e essa coisa que às vezes a gente tem, também se vê que diminui com a atenção. Que tende a não te tomar. Não pode ser que você esteja em um tema movimentando idéias e coisas que têm que ser cristalinas, e de repente apareça um climão e te prejudique e te embace tudo. Mas que é isto? Isso não pode ser. Como fazer isso: Põe a cabeça bem! Não convém. Não faça isso. Isto a gente vê, acho que o notamos todos, estamos muito treinados, somos alcoviteiros, muito psicologizados, acho que notamos muito ao sujeito que se climatiza, temos muita sensibilidade para isso. E nos parece uma coisa desproporcionada, não está agindo bem com sua cabeça. Ponha bem sua atenção!

Este comportamento pode constituir-se no comportamento mental habitual, com o qual se vive. É uma conduta mental diferente.


Há gente que sofre e devaneia, e se climatiza. E para que serve isso? A quem lhe serve? A ele não lhe serve, aos demais também não. E que lógica tem isso? Essas são condutas mentais inaceitáveis. (Risos).


Bom, imaginem que vem o mocinho aí com uma conduta mental inaceitável: Retire-se! Pense de outro modo a próxima vez que vier. Claro, me vem com um bafo, com uma encrenca... como se enchesse todo um pântano... Não contamine! Melhor que fale logo... Que gestos são esses! E daí desconsideração, não? Chega o tipo, te faz uma coisa, é um desconsiderado, está metido na sua confusão... Não é possível estar com ele aí, "bip, bip, bip, bip", sem dramas.


Às vezes se consegue, nos diálogos entre nós, essas coisas muito neutras, muito em tema. São estupendos esses momentos.  Simplesmente se está no que se está. Mesmo que o mundo venha abaixo. As pessoas têm uns desastres que deixaram por aí jogados, mas estão interessadas em um tema, que pode ser uma bobagem, mas é muito gratificante. Mas se você está nisso, e de pronto tudo se complica, tudo fica nublado pela cagada de um clima... Olha, você está aqui, não está lá. E o que acontece lá, você não vai resolver. Por outro lado acontece lá, além disso, te atrapalhou aqui.


Não sabem, não estudam…

 

 

 

 

 

 

 

A ATENÇÂO

A atenção é a aptidão da consciência que permite observar os fenômenos internos e externos. Quando um estímulo passa o umbral, desperta o interesse da consciência ficando em um campo central ao que se dirige a atenção. Ou seja, a atenção funciona por interesses, por algo que de algum modo impressiona à consciência, dando registro.

O estímulo que desperta interesse pode ficar em um campo central de atenção, ao que denominamos campo de presença, que tem que ver com a percepção. Tudo o que não aparece ligado estritamente ao objeto central se vai diluindo na atenção, porém acompanhando a presença do objeto mediante relações associativas com outros objetos não presentes, mas vinculados a ele. A este fenômeno atencional o chamamos campo de co-presença e tem a ver com a memória.


Na evocação se pode deslocar a atenção das presenças às co-presenças, e isso é assim porque houve registro do objeto presente e dos objetos co-presentes. A co-presença permite estruturar os novos dados, e assim dizemos que ao atender a um objeto se faz presente o evidente, e o não evidente opera de modo co-presente. Isto  faz a consciência sobre a percepção, de maneira que sempre se está estruturando mais do que se percebe, ultrapassando ao objeto observado.


Existem diversos tipos de atenção dependendo do modo em que se está atendendo ao fenômeno. Assim, podemos falar de uma atenção simples, de uma atenção dividida, de uma atenção dirigida e também de uma atenção tensa.


A atenção simples é um modo de atender em que a atenção está dedicada exclusivamente à atividade que se efetua.


A atenção dividida é aquela na qual se atende a dois estímulos simultaneamente. Por exemplo, atendo um objeto ou fenômeno dado e simultaneamente estou atendendo a uma parte de meu corpo.


A atenção dirigida é uma forma de atenção aperceptual na qual a atividade do pensar está ligada a registros de relaxamento, de auto-observação, de compreensão e de claridade interna. Atendo, e enquanto atendo observo desde meu interior ao quê estou atento.


Também existe uma atenção tensa na qual a atividade do pensar está ligada a tensões corporais de caráter muscular, inúteis e desnecessárias ao processo atencional.


É importante destacar que diretamente ligado ao tipo de atenção que se põe em prática em cada situação, se porá também em jogo a perspectiva, o olhar, a colocação frente às coisas, frente aos demais e frente à vida em geral.


Bibliografia
Luis A. Ammann, Autoliberação, Práticas Psicofísicas, Lição 6, Aperfeiçoamento atencional

 


 

   

Notas Internacionais


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A MUDANÇA E A CRISE

(Com base na Carta III, do Livro “Cartas a Meus Amigos”)


Nesta época de grande mudança estão em crises os indivíduos, as instituições e a sociedade. A mudança será cada vez mais rápida e também as crises individuais, institucionais e sociais. Isto anuncia perturbações que talvez não sejam assimiladas por amplos setores humanos.


As transformações que estão ocorrendo tomam direções inesperadas, produzindo desorientação geral a respeito do futuro e do que se deve fazer no presente. Na realidade não é a mudança o que nos perturba, já que nela observamos muitos aspectos positivos. O que nos inquieta é não saber em que direção vai a mudança, e para onde orientar nossa atividade.


A mudança está ocorrendo na economia, na tecnologia e na sociedade; sobretudo está operando em nossas vidas: em nosso meio familiar e trabalhista, em nossas relações de amizade. Estão se modificando nossas idéias e o que acreditávamos sobre o mundo, sobre as demais pessoas e sobre nós mesmos. Muitas coisas nos estimulam, mas outras nos confundem e paralisam. O comportamento dos demais e o próprio nos parecem incoerentes, contraditórios e sem direção clara, tal como ocorre com os eventos que nos rodeiam.


Portanto, é fundamental dar direção a essa mudança inevitável, e não há outra forma de fazê-lo a não ser começando por si mesmo. Em si mesmo deve dar-se direção a estas mudanças desordenadas cujo rumo desconhecemos. 


Como os indivíduos não existem isolados, se realmente direcionam sua vida modificarão a relação com outros: na sua família, no seu trabalho e onde eles atuarem. Este não é um problema psicológico que se resolve dentro da cabeça de indivíduos isolados, mas se resolve mudando a situação em que se vive com outros, mediante um comportamento coerente. Quando festejamos sucessos ou nos deprimimos pelos nossos fracassos, quando fazemos planos a futuro ou nos propomos a introduzir mudanças em nossa vida, esquecemos o ponto fundamental: estamos em situação de relação com outros. Não podemos explicar o que nos ocorre, nem escolher, sem referência a certas pessoas e a certos âmbitos sociais concretos. Essas pessoas que têm especial importância para nós e esses âmbitos sociais nos quais vivemos nos põem em uma situação precisa desde a qual pensamos, sentimos e atuamos. Negar isto ou não levá-lo em conta cria enormes dificuldades. Nossa liberdade de escolha e ação está delimitada pela situação em que vivemos. Qualquer mudança que desejemos operar não pode ser formulada em abstrato, mas com referência à situação em que vivemos.

O comportamento coerente 


Se pudéssemos pensar, sentir e atuar na mesma direção, se o que fazemos não nos criasse contradição com o que sentimos, diríamos que nossa vida tem coerência. Seríamos confiáveis ante nós mesmos, mesmo que não necessariamente confiáveis para nosso meio imediato. Deveríamos alcançar essa mesma coerência na relação com outros tratando os demais como quiséssemos ser tratados. Sabemos que pode existir uma espécie de coerência destrutiva como observamos nos racistas, nos exploradores, nos fanáticos e nos violentos, mas está clara sua incoerência na relação porque tratam a outros de um modo muito diferente ao que desejam para si mesmos. Essa unidade de pensamento, sentimento e ação, essa unidade no trato que se pede e o trato que se dá, são ideais que não se realizam na vida diária. Este é o ponto. Trata-se de um ajuste de condutas a essas propostas, trata-se de valores que, tomados com seriedade, direcionam a vida independentemente das dificuldades que se enfrentem para realizá-los. Se observarmos bem as coisas, não estaticamente, mas em dinâmica, compreenderemos isto como uma estratégia que deve ir ganhando terreno à medida que o tempo passe. Aqui sim valem as intenções, mesmo que as ações não coincidam ao começo com elas, sobretudo se aquelas intenções são mantidas, aperfeiçoadas e ampliadas. Essas imagens do que se deseja alcançar são referências firmes que dão direção em toda situação. E isto que dizemos não é tão complicado. Não nos surpreende, por exemplo, que uma pessoa oriente sua vida para alcançar uma grande fortuna; no entanto, esta pode saber antecipadamente que não a alcançará. De todas as maneiras, seu ideal a impulsiona mesmo que não tenha resultados relevantes. Por que então, não é possível entender que, mesmo que a época seja adversa a relacionar o trato que se pede com o trato que se dá, mesmo que seja adversa a pensar, sentir e atuar na mesma direção, esses ideais de vida podem dar direção às ações humanas?

As duas propostas 


Pensar, sentir e atuar na mesma direção, e tratar a outros como desejamos ser tratados, são duas propostas tão simples que podem ser entendidas como simples ingenuidades por gente habituada às complicações. No entanto, por trás dessa aparente candura há uma nova escala de valores, em cujo ponto mais alto se põe a coerência; uma nova moral para a que não é indiferente qualquer tipo de ação; uma nova aspiração que implica sermos consequentes no esforço para dar direção aos eventos humanos. Por trás dessa aparente candura se aposta pelo sentido da vida pessoal e social que será verdadeiramente evolutivo ou marchará à desintegração. Não podemos já confiar em que velhos valores dêem coesão às pessoas em um tecido social que dia a dia se deteriora pela desconfiança, o isolamento e o individualismo crescentes. A antiga solidariedade entre os membros de classes, associações, instituições e grupos vai sendo substituída pela concorrência selvagem à qual não escapa o casal nem a irmandade familiar. Neste processo de demolição não se elevará uma nova solidariedade sobre a base de idéias e comportamentos de um mundo que se foi, mas graças à necessidade concreta de cada um de direcionar sua vida, para o qual terá que modificar seu próprio meio. Essa modificação, se for verdadeira e profunda, não pode ser posta em marcha por imposições, por leis externas ou por fanatismos de qualquer tipo, mas pelo poder da opinião e da ação mínima conjunta entre as pessoas que fazem parte do meio em que cada um vive. 

Chegar a toda a sociedade a partir do meio imediato


Sabemos que ao mudar positivamente nossa situação, estaremos influindo em nosso meio, e outras pessoas compartilharão este ponto de vista dando lugar a um sistema de relações humanas em crescimento. Teremos que nos perguntar: por que deveríamos ir além de onde começamos? Simplesmente por coerência com a proposta de tratar aos outros como queremos que nos tratem. Ou por acaso não levaríamos aos demais algo que foi fundamental para nossas vidas? Se a influência começa a desenvolver-se é porque as relações e, portanto, os componentes de nosso meio, se ampliaram. Esta é uma questão que deveríamos levar em conta desde o começo, porque ainda quando nossa ação começa aplicando-se em um ponto reduzido, a projeção dessa influência pode chegar muito longe. Não tem nada de estranho pensar que outras pessoas decidam somar-se na mesma direção. Depois de tudo, os grandes movimentos históricos seguiram o mesmo caminho: começaram pequenos, como é lógico, e se desenvolveram graças ao fato de que as pessoas os consideraram intérpretes de suas necessidades e inquietações. Atuar no meio imediato, mas com o olhar colocado no progresso da sociedade, é coerente com tudo o dito. De outro modo, para que faríamos referência a uma crise global que deve ser enfrentada resolutamente se tudo terminasse em indivíduos isolados para quem os demais não têm importância? Por necessidade de pessoas que coincidam em dar uma nova direção a sua vida e aos eventos, surgirão âmbitos de discussão e comunicação direta. Mais adiante, a difusão através de todos os meios permitirá ampliar a superfície de contato. Outro tanto ocorrerá com a criação de organismos e instituições compatíveis com este planejamento.



O meio em que se vive


Já comentamos que é tão veloz e tão inesperada a mudança, que este impacto é recebido como crise ,na qual se debatem sociedades inteiras, instituições e indivíduos. Por isso é imprescindível dar direção aos eventos. No entanto, como poderia fazê-lo cada um, submetido como está à ação de fatos maiores? É evidente que cada um pode direcionar somente aspectos imediatos de sua vida, e não o funcionamento das instituições nem da sociedade. Por outra parte, pretender dar direção à própria vida não é coisa fácil, já que cada qual vive em situação; não vive isolado, e sim em um meio. A este meio podemos vê-lo tão amplo como o Universo, a Terra, o país, o Estado, etc. No entanto, há um meio imediato que é onde desenvolvemos nossas atividades. Tal meio é o familiar, o trabalhista, o de amizades, etc. Vivemos em situação com referência a outras pessoas, e esse é o nosso mundo particular do qual não podemos prescindir. Ele atua sobre nós e nós sobre ele de um modo direto. Caso tenhamos alguma influência, é sobre esse meio imediato. Mas ocorre que tanto a influência que exercemos como a que recebemos estão afetadas, por sua vez, por situações mais gerais, pela crise e a desorientação.

A coerência como direção de vida


Se quisesse dar alguma direção aos eventos seria preciso começar pela própria vida e, para fazê-lo, teríamos que levar em conta o meio no qual atuamos. Mas a que direção podemos aspirar? Sem dúvida, à que nos proporcione coerência e apoio em um meio tão cambiante e imprevisível. Pensar, sentir e atuar na mesma direção é uma proposta de coerência na vida. No entanto, isto não é fácil porque nos encontramos em uma situação que não escolhemos completamente. Estamos fazendo coisas que necessitamos mesmo que em grande desacordo com o que pensamos e sentimos. Somos colocados em situações que não governamos. Atuar com coerência mais que um fato é uma intenção, uma tendência que podemos ter presente de maneira que nossa vida vá direcionando-se para esse tipo de comportamento. É claro que unicamente poderemos mudar parte de nossa situação, se influímos nesse meio. Ao fazê-lo, estaremos direcionando a relação com outros e outros compartilharão tal conduta. Se ao anterior se objeta que algumas pessoas mudam de meio com certa freqüência em razão de seu trabalho ou por outros motivos, responderemos que isso não modifica em nada o formulado, já que sempre se estará em situação, sempre se estará em um meio dado. Se pretendermos coerência, o trato que dermos aos demais terá que ser do mesmo gênero que o trato que exigimos para nós. Assim, nestas duas propostas encontramos os elementos básicos de direção até onde chegam nossas forças. A coerência avança conforme avança o pensar, sentir e atuar na mesma direção. Esta coerência se estende a outros, porque não há outra forma de fazê-lo, e ao estender-se a outros começamos a tratá-los do modo que queremos ser tratados. Coerência e solidariedade são direções, aspirações de condutas a alcançar.

A proporção das ações como avanço para a coerência


Como avançar em direção coerente? Em primeiro lugar, necessitaremos certa proporção no que fazemos cotidianamente. É necessário estabelecer quais são as questões mais importantes em nossa atividade. Devemos priorizar o fundamental para que as coisas funcionem, depois vermos o secundário, e assim em diante. Possivelmente ao atender a duas ou três prioridades tenhamos um bom quadro de situação. As prioridades não podem inverter-se, tampouco podem separar-se tanto que se desequilibre nossa situação. As coisas devem ir em conjunto, não isoladamente, evitando que umas se antecipem e outras se atrasem. Freqüentemente nos cegamos pela importância de uma atividade e, desta sorte, desequilibra-nos o conjunto; no fim o que considerávamos tão importante também não pode realizar-se porque nossa situação geral ficou afetada. Também é certo que às vezes se apresentam assuntos de urgência aos que devemos nos dedicar, mas é claro que não se pode viver adiando  outros que dizem respeito  ao cuidado da situação geral em que vivemos. Estabelecer prioridades e levar a atividade em proporção adequada é um avanço evidente em direção à coerência.

A oportunidade das ações como avanço para a coerência


Existe uma rotina cotidiana dada pelos horários, os cuidados pessoais e o funcionamento de nosso meio. No entanto, dentro dessas pautas há uma dinâmica e riqueza de eventos que as pessoas superficiais não sabem apreciar. Há os que confundem sua vida com suas rotinas, mas isto não é assim em absoluto já que muito freqüentemente devem escolher dentro das condições que o meio lhes impõe. A propósito, vivemos entre inconvenientes e contradições, mas convirá não confundir ambos os termos. Entendemos por “inconvenientes” às moléstias e impedimentos que enfrentamos. Não são enormemente graves, mas sem dúvida que, se são numerosos e repetidos, acrescentam a nossa irritação e fadiga. A propósito, estamos em condições de superá-los. Não determinam a direção de nossa vida nem impedem que levemos adiante um projeto, são obstáculos no caminho que vão desde a menor dificuldade física a problemas pelos quais estamos a ponto de perder o rumo. Os inconvenientes admitem uma graduação importante, mas se mantêm em um limite que não impede avançar. Algo diferente ocorre com o que chamamos «contradições». Quando nosso projeto não pode ser realizado, quando os eventos nos lançam em uma direção oposta à desejada, quando nos encontramos em um círculo vicioso que não podemos romper, quando não podemos direcionar minimamente a nossa vida, estamos tomados pela contradição. A contradição é uma sorte de investimento na correnteza da vida que nos leva a retroceder sem esperança. Estamos descrevendo o caso em que a incoerência se apresenta com maior crueza. Na contradição, o que pensamos, sentimos e fazemos se opõem entre si. Apesar de tudo, sempre há possibilidade de direcionar a vida, mas é necessário saber quando fazê-lo. A oportunidade das ações é algo que não levamos em conta na rotina cotidiana, e isto acontece porque muitas coisas estão codificadas. Mas em referência aos inconvenientes importantes e às contradições, as decisões que tomamos não podem estar expostas à catástrofe. Em termos gerais, devemos retroceder ante uma grande força e avançar com resolução quando essa força se debilitar. Há uma grande diferença entre o temeroso que retrocede ou se imobiliza ante qualquer inconveniente e o que atua sobrepondo-se às dificuldades, sabendo precisamente que avançando pode superá-las. Ocorre, às vezes, que não é possível avançar porque um problema superior a nossas forças aparece, e arremeter sem cálculo nos leva ao desastre. O grande problema que enfrentemos será também dinâmico e a relação de forças mudará, porque vamos crescendo em influência, ou porque a influência do problema diminui. Quebrada a relação anterior, é momento de proceder com resolução, já que uma indecisão ou uma postergação fará com que novamente se modifiquem os fatores. A execução da ação oportuna é a melhor ferramenta para produzir mudanças de direção.

A adaptação crescente como avanço para a coerência


Consideremos o tema da direção, da coerência que queremos alcançar. Adaptarmo-nos a certas situações está relacionado a essa proposta, porque nos adaptarmos ao que nos leva em direção oposta à coerência é uma grande incoerência. Os oportunistas padecem de uma grande miopia a respeito deste tema. Eles consideram que a melhor forma de viver é a aceitação de tudo; pensam que aceitar tudo desde que provenha de quem tem poder é uma grande adaptação, mas é claro que sua vida dependente está muito longe do que entendemos por coerência. Distinguimos entre a inadaptação, que nos impede de ampliar nossa influência, a adaptação decrescente que nos deixa na aceitação das condições estabelecidas, e a adaptação crescente que faz crescer nossa influencia em direção às propostas que viemos comentando.

Sintetizemos o dito:


1.- Há uma mudança veloz no mundo, motorizada pela revolução tecnológica, que está se chocando com as estruturas estabelecidas e com a formação e os hábitos de vida das sociedades e os indivíduos.

2.- Esta defasagem gera crises progressivas em todos os campos e não há por que supor que se deterá mas, inversamente, tenderá a se incrementar.

3.- O inesperado dos eventos impede prever que direção tomarão os fatos, as pessoas que nos rodeiam e, definitivamente, nossa própria vida.

4.- Muitas das coisas que pensávamos e achávamos já não nos servem. Também não estão à vista soluções que provenham de alguma sociedade, instituições ou indivíduos que padecem do mesmo mal.

5.- Se decidirmos trabalhar para fazer frente a estes problemas teremos que dar direção a nossa vida, buscando coerência entre o que pensamos, sentimos e fazemos. Como não estamos isolados, essa coerência terá que chegar à relação com outros, tratando-os do modo que desejamos para nós. Estas duas propostas não podem ser cumpridas rigorosamente, mas constituem a direção que necessitamos, sobretudo se as tomamos como referências permanentes e aprofundamo-nos nelas.

6.- Vivemos em relação imediata com outros, e é nesse meio onde devemos atuar para dar direção favorável a nossa situação. Esta não é uma questão psicológica, uma questão que possa ajeitar-se na cabeça isolada dos indivíduos, este é um tema relacionado com a situação em que se vive.

7.- Sendo coerentes com as propostas que tratamos de levar adiante, chegaremos à conclusão de que o positivo para nós e nosso meio imediato deve ser ampliado a toda a sociedade. Junto a outros que coincidem na mesma direção, encontraremos os meios mais adequados para que uma nova solidariedade encontre seu rumo. Por isso, ainda atuando tão especificamente em nosso meio imediato, não perderemos de vista uma situação global que afeta todos os seres humanos, e que requer nossa ajuda assim como nós necessitamos a ajuda dos demais.

8.- As mudanças inesperadas nos levam a considerar seriamente a necessidade de direcionar nossas vidas.

9.- A coerência não começa e termina em si mesmo mas está relacionada com um meio, com outras pessoas. A solidariedade é um aspecto da coerência pessoal.

10.- A proporção nas ações consiste em estabelecer prioridades de vida e operar com base nelas, evitando o desequilíbrio.

11.- A oportunidade do acionar leva em conta retroceder ante uma grande força e avançar com resolução quando esta se debilita. Esta idéia é importante aos efeitos de produzir mudanças na direção da vida se estamos submetidos à contradição.

12.- É tão inconveniente a desadaptação em um meio no qual não podemos mudar nada, como a adaptação decrescente na qual nos limitamos a aceitar as condições estabelecidas. A adaptação crescente consiste no aumento de nossa influência no meio e em direção coerente.


Bibliografia
Silo, Obras Completas, Volume I, “Cartas a meus Amigos”, Terceira carta a meus amigos.