Início A Realidade: paisagens e olhares AS PAISAGENS E OS OLHARES

AS PAISAGENS E OS OLHARES

(Capítulo I do livro A Paisagem Humana)

 

1. Falemos de paisagens e olhares, retomando o que foi dito em algum outro lugar: "Paisagem externa é o que percebemos das coisas; paisagem interna é o que filtramos delas com a peneira do nosso mundo interno. Estas paisagens são uma e constituem a nossa indissolúvel visão da realidade".

 

2. Já nos objetos externos percebidos, um olhar ingênuo pode fazer confundir "o que se vê" com a  própria realidade. Haverá quem vá mais longe crendo que lembra a "realidade" tal como foi. E não faltará um terceiro que confunda sua ilusão, sua alucinação ou as imagens dos seus sonhos com objetos materiais (que na realidade foram percebidos e transformados em diferentes estados de consciência).

 

3. Que nas recordações e nos sonhos apareçam deformados objetos anteriormente percebidos não parece trazer dificuldades às pessoas razoáveis. Mas que os objetos percebidos sempre estejam cobertos pelo manto multicolorido de outras percepções simultâneas e de recordações que nesse momento atuam; que perceber seja um modo global de estar entre as coisas, um tom emotivo e um estado geral do próprio corpo... Isto, como idéia, desorganiza a simplicidade da prática diária, do fazer com as coisas e entre as coisas.

 

4. Acontece que o olhar ingênuo toma o mundo "externo" com a própria dor ou a própria alegria. Olho, não só com o olho, mas também com o coração, com a suave recordação, com a avilenta suspeita, com o cálculo frio, com a sigilosa comparação. Olho através de alegorias, signos e símbolos que não vejo no olhar, mas que atuam sobre ele,  assim  como  não vejo o olho nem o atuar do olho quando olho.

 

5. Por isso, pela complexidade do perceber, quando falo de realidade externa ou interna, prefiro fazê-lo usando o vocábulo "paisagem" ao invés de "objeto". E com isso dou por entendido que menciono blocos, estruturas e não a individualidade isolada e abstrata de um objeto. Também me interessa destacar que a essas paisagens correspondem atos do perceber aos quais chamo "olhares" (invadindo, talvez ilegitimamente, numerosos campos que não se referem à visualização). Estes "olhares" são atos complexos e ativos, organizadores de "paisagens", e não simples e passivos atos de recepção de informação externa (dados que chegam aos meus sentidos externos) ou interna (sensações do próprio corpo, recordações e percepções). Além disso, nestas mútuas implicações de "olhares" e "paisagens", as distinções entre o interno e o externo se estabelecem segundo direções da intencionalidade da consciência e não como gostaria o esquematismo ingênuo que se apresenta aos escolares.

 

6. Se o anterior está entendido, quando fale de  "paisagem humana", compreender-se-á que estou me referindo a um tipo de paisagem externa constituída por pessoas e também por fatos e intenções humanas plasmados em objetos, mesmo que o ser humano como tal não esteja ocasionalmente presente.

 

7. Convém, além disso, distinguir entre mundo interno  e "paisagem interna"; entre natureza e "paisagem externa"; entre sociedade e "paisagem humana", enfatizando que ao mencionar "paisagem", sempre se está implicando quem olha, à diferença dos outros casos em que mundo interno (ou psicológico), natureza e sociedade, aparecem ingenuamente como existentes em si, excluídos de toda a interpretação.

Notas Internacionais


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AS VIRTUDES

No momento atual, na vida social e pessoal, tende-se a enfatizar as dificuldades e o negativo de si mesmo e das pessoas que se relacionam com a gente.
Esta visão degradante de si mesmo gera uma atitude, uma forma de sentir e de viver muito particular, cujo resultado a curto ou médio prazo resultará negativo.
Não negamos que exista um grande número de dificuldades às que nos enfrentamos dia após dia. Mas é muito importante reconhecer que esta maneira de enfrentá-las é conseqüência de um sistema desumano que hoje se impõe e que tende a negativizar as pessoas.


Podemos repetir mecanicamente esta atitude, ou descobrir e fortalecer um modo de viver, pensar e sentir diferente, que se apóie no mais interessante de cada um. Que se apóie nas próprias virtudes.


Entendemos por virtude toda atitude que, levada à ação, nos põe em acordo com nós mesmos, independentemente de nossa habilidade para realizá-la, nos deixando um registro de profunda paz.


Se lembrarmos estas situações, veremos que possivelmente não só estarão ligadas a certas ações, mas a um modo de realizá-las no qual atuamos desde o melhor de cada um.


Se reconhecermos estas atitudes, se conseguimos tingir nosso diário acionar com este modo de fazer as coisas, reconheceremos não só nossas virtudes, mas também as dos demais, e certamente poderemos saltar por cima das dificuldades, modificar situações, e assim alcançar os objetivos de vida propostos.


Em todo caso, realizar uma lista das próprias virtudes (sejam estas atitudes, modos de comportamento, habilidades, atividades, etc.), e depois imaginar como se poderia potencializar ao máximo sua aplicação no mundo, resulta em um trabalho de muita importância para a própria vida e para a dos demais.


Este modo de fazer e sentir as coisas, este posicionamento frente à vida baseado nas próprias virtudes, deveria colocar-se em marcha desde agora. É a atitude que permite resolver dificuldades, avançar e construir em uma direção de vida coerente e positiva.