Início A Realidade: paisagens e olhares livro “Humanizar a Terra”

livro “Humanizar a Terra”

Da Conferência de apresentação do livro “Humanizar a Terra”

Reykjavik, Islândia, 13 de novembro de 1989

 

O terceiro livro, A Paisagem Humana, está dedicado em seus primeiros capítulos a esclarecer os significados de paisagem e de olhar que se refere a essa paisagem, questionando a forma de olhar para o mundo e de apreciar os valores estabelecidos. Há, neste trabalho, uma revisão sobre o significado do próprio corpo e o corpo dos outros, sobre a subjetividade e sobre o curioso fenômeno de apropriação da subjetividade do outro. Conseqüentemente, se desenvolve um estudo fragmentado em capítulos sobre a intenção: a intenção na Educação; no relato que se faz da História; nas ideologias; na violência; na Lei; no Estado e na Religião. Este não é um livro simplesmente contestatório, como se tem dito, já que propõe novos modelos correspondentes a cada tema que critica. A Paisagem Humana tenta fundamentar a ação no mundo reorientando significados e interpretações sobre valores e instituições que pareciam definitivamente aceitos. Com respeito ao conceito de "paisagem", direi que ele constitui uma peça fundamental do nosso sistema de pensamento como já se tem visto em outras produções como Psicologia da Imagem e também em Discussões Historiológicas. Contudo, no livro que estamos comentando, a idéia de "paisagem" está modestamente explicada e dentro do contexto da obra que aparece sem as pretensões do pensar rigoroso. Assim, se diz: "Paisagem externa é o que percebemos nas coisas; paisagem interna é o que filtramos delas com a peneira do nosso mundo interno. Estas paisagens são uma só e constituem nossa indissolúvel visão da realidade." Ninguém melhor que vós, islandeses, para compreender estas idéias. Embora o ser humano se encontre sempre numa paisagem, nem por isso tem consciência de tal coisa. Mas, quando o mundo em que cada um vive se apresenta como contraste máximo, como a contradição impossível de sustentar, como o equilíbrio instável por excelência, a paisagem se converte em um dado vivo da realidade. Os habitantes dos imensos desertos ou das planícies infinitas têm em comum que seu horizonte comunica, lá na distância, a terra com os céus numa seqüência em que, afinal, fica-se sem saber qual é a terra e qual é o céu... Somente a continuidade vazia aparece diante dos olhos. Mas há outros lugares onde choca o máximo gelo com o máximo fogo, a geleira com o vulcão, a ilha com o mar que a rodeia. Onde as águas, além disso, furiosamente irrompem da terra, impulsionadas para o céu, como no gêiser. Donde tudo é contraste, tudo é finidade, o olhar se dirige a consultar as estrelas imóveis buscando seu descanso. E, então, os mesmos céus começam a se mover, os deuses dançam e mudam de forma e de cor em auroras boreais gigantescas. E o olhar finito se recolhe sobre si gerando sonhos de mundos harmoniosos, sonhos eternos, sonhos que cantam histórias de mundos que se foram, na esperança do mundo por vir. Por isso creio que esses lugares são paisagens em que todo habitante é um poeta que não se reconhece a si mesmo como tal: onde todo habitante é um viajante que leva sua visão a outros lugares. Assim sendo, em outra medida e com outra colocação, todo ser humano tem algo de ilha porque sua paisagem original sempre se impõe sobre sua visão perceptiva, porque todos nós vemos não somente o que está na nossa frente, mas fazemos as nossas comparações e até o descobrimento do novo a partir do que já temos conhecido. Deste modo, sonhamos ao ver as coisas e depois as tomamos como se elas fossem a realidade mesma.

Mas o conceito tem mais amplitude já que a paisagem não é, somente, o natural que aparece diante dos olhos, mas também o humano, o social. É certo que cada pessoa interpreta as outras segundo sua própria biografia e põe no alheio mais do que percebe. De acordo com isso, nunca vemos da realidade do outro o que o outro é em si, mas formamos do outro um esquema, uma interpretação surgida da nossa paisagem interna. A paisagem interna se sobrepõe à externa que não somente é natural, mas também social e humana. Claramente ocorre que a sociedade muda e que as gerações se sucedem e, então, quando a uma geração compete atuar, ela o faz tentando impor valores e interpretações formadas em outra época. As coisas vão relativamente bem em momentos históricos estáveis, mas em momentos como o atual, de grande dinâmica, a distância entre as gerações se acentua ao mesmo tempo em que o mundo muda debaixo dos nossos pés. Para onde irá nosso olhar? O que devemos aprender a ver? Não é estranho que nesses dias se popularize a idéia de "nos dirigirmos a uma nova forma de pensar". Hoje temos que pensar rápido porque tudo vai mais rápido e o que acreditávamos até pouco tempo atrás, como se fosse uma realidade imutável, hoje já não é mais. Assim pois, amigos, já não podemos pensar mais a partir da nossa paisagem se esta não se dinamiza e universaliza, se não é válida para todos os seres humanos. Temos de compreender que os conceitos de "paisagem" e de "olhar" podem servir-nos para ir ao encontro dessa anunciada "nova forma de pensar" que está exigindo este processo de mundialização crescentemente acelerado.


 

Bibliografia
Silo, Obras Completas, Volume I, “Humanizar a Terra”.


Silo, Obras Completas, Volume I, “Fala Silo” - Conferência de apresentação do livro “Humanizar a Terra” - Reykiavik, Islândia, 13 de novembro de 1989

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A VERDADEIRA SOLIDARIEDADE

Consideremos estas idéias: “Onde há sofrimento e posso fazer algo para aliviá-lo, tomo a iniciativa. Onde não posso fazer nada, sigo meu caminho alegremente”.
Semelhantes idéias parecem práticas, mas nos deixam o sabor de falta de solidariedade. Como seguir em frente alegremente deixando para trás o sofrimento, desentendendo-nos do pesar alheio?


Vejamos um exemplo. No meio da calçada, um homem cai em violentas convulsões. Os transeuntes se concentram, dando instruções contraditórias e criando ao redor do doente um cerco asfixiante. Muitos se preocupam, mas não são efetivos. Talvez quem chame urgentemente ao médico, ou aquele outro que põe a raia aos curiosos para evitar o aglomeramento, sejam os mais ajuizados. Eu posso ser um dos que tomam a iniciativa, ou talvez um terceiro que consegue algo positivo e prático em tal situação. Mas se atuo por simples solidariedade criando confusão, ou obstaculizando aos que podem fazer algo prático, não ajudo, e sim prejudico.


O anterior é compreensível, mas que quer dizer: “…Onde não posso fazer nada, sigo meu caminho alegremente”? Não quer dizer que estou muito contente por isso que sucedeu. Quer dizer que minha direção não deve ser entorpecida pelo inevitável; quer dizer que não devo somar problemas aos problemas; quer dizer que devo positivizar o futuro, já que o oposto não é bom para outros nem para mim.


Há pessoas que, com uma mal entendida solidariedade, negativizam quem quer ajudar e prejudicam a elas mesmas. Essas são diminuições da solidariedade, porque a energia perdida nesse comportamento deveria haver-se aplicado em outra direção, em outras pessoas, em outras situações nas quais efetivamente tivesse obtido resultados práticos. Quando falamos de resultados práticos, não nos referimos somente ao brutalmente material, porque até um sorriso ou uma palavra de encorajamento podem ser úteis se existe uma possibilidade de que ajudem.