Início Antecedentes do Humanismo

ANTECEDENTES E PONTOS FUNDAMENTAIS DO HUMANISMO UNIVERSALISTA

Falaremos sobre uma corrente de pensamento que postula a ação transformadora e que começa a ser levada em conta graças às mudanças profundas que estão operando na sociedade. O Humanismo é esta corrente. Revisaremos, muito brevemente, seus antecedentes históricos, seu desenvolvimento e a situação em que se encontra atualmente.



Diferença entre corrente e atitude humanista


Devemos estabelecer, previamente, uma diferença entre o humanismo como corrente e o humanismo como atitude. Esta última já estava presente em diferentes culturas antes que a palavra “humanismo” fosse cunhada no Ocidente.

A atitude humanista é comum às diferentes culturas, em certos períodos de sua história e se caracteriza por:

  • A localização do ser humano como valor central;
  • A afirmação da igualdade de todos os seres humanos;
  • O reconhecimento da diversidade pessoal e cultural;
  • A tendência ao desenvolvimento do conhecimento acima do aceito como verdade absoluta;
  • A afirmação da liberdade de idéias e crenças
  • O repúdio da violência.


Esta atitude é o que conta em nosso Novo Humanismo Universalista e são as diferentes culturas as que nos ensinam a amar e praticar esta posição frente à vida. Remeto a quem interessar, ao estudo do humanismo nas diferentes culturas (Anuário 1994 do Centro Mundial de Estudos Humanistas, particularmente na contribuição do professor Serguei Semenov, estudioso do humanismo pré-colombiano em Meso-América e na América do Sul).


Devemos fazer também uma distinção, um tanto pueril, entre os estudos de “humanidades” que se compartilham nas faculdades ou institutos de estudos e a atitude pessoal não definida pela dedicação profissional, mas pelo posicionamento frente ao humano como preocupação central. Quando alguém se define como “humanista” não o faz com referência a seus conhecimentos de “humanidades” ao mesmo tempo em que um estudante ou estudioso dessas disciplinas não por isso se considera “humanista”. Deslizamos este comentário porque não faltaram os que ligaram o “humanismo” com um determinado tipo de conhecimento ou nível cultural.

No Ocidente, duas são as acepções que costumam ser atribuídas à palavra "humanismo". Fala-se de "humanismo" para indicar qualquer tendência de pensamento que afirme o valor e a dignidade do ser humano. Com este significado, pode-se interpretar o humanismo dos modos mais diversos e contrastantes. No seu significado mais limitado, mas colocando-o em uma perspectiva histórica precisa, o conceito de Humanismo é usado para indicar esse processo de transformação que se iniciou entre finais do século XIV e começos do XV e que, no século seguinte, com o nome de "Renascimento", dominou a vida intelectual da Europa. Basta mencionar Erasmo; Giordano Bruno; Galileu; Nicolas de Cusa; Tomás Moro; Juan Vives e Bouillé para compreender a diversidade e extensão do Humanismo histórico. Sua influência se prolongou por todo o século XVII e grande parte do XVIII, desembocando nas revoluções que abriram as portas da Idade Contemporânea. Esta corrente pareceu apagar-se lentamente até que em meados deste século começou a andar novamente no debate de pensadores preocupados pelas questões sociais e políticas.



Os aspectos fundamentais do Humanismo histórico foram, aproximadamente, os seguintes:


1.- A reação contra o modo de vida e os valores do Medieval. Assim, começa um forte reconhecimento de outras culturas, particularmente da greco-romana, na arte, na ciência e na filosofia.


2.- A proposta de uma nova imagem do ser humano, do qual se exaltam sua personalidade e sua ação transformadora.


3.- Uma nova atitude com respeito à natureza, à qual se aceita como ambiente do homem e já não como um submundo cheio de tentações e castigos.


4.- O interesse pela experimentação e investigação do mundo circundante, como uma tendência a buscar explicações naturais, sem necessidade de referências ao sobrenatural.

Esses quatro aspectos do Humanismo histórico convergem para um mesmo objetivo: fazer surgir a confiança no ser humano e sua criatividade, e considerar o mundo como reino do homem, reino ao qual este pode dominar mediante o conhecimento das ciências. A partir dessa nova perspectiva se expressa a necessidade de construir uma nova visão do universo e da história. Da mesma maneira, as novas concepções desse Humanismo histórico levam à reformulação da questão religiosa tanto nas suas estruturas dogmáticas e litúrgicas como nas organizativas que, naquele tempo, impregnaram as estruturas sociais do Medieval. O Humanismo, em correlato com a modificação das forças econômicas e sociais da época, representa uma revolução cada vez mais consciente e cada vez mais orientada para a discussão da ordem estabelecida. Mas, a Reforma no mundo alemão, anglo-saxão e a contra-reforma no mundo latino tratam de frear as novas idéias re-propondo autoritariamente a visão cristã tradicional. A crise passa da Igreja para as estruturas estatais. Finalmente, o império e a monarquia por direito divino são eliminados graças às revoluções de fins do século XVIII e XIX.


Mas, depois da Revolução francesa e das guerras da independência americanas, o Humanismo praticamente desapareceu não obstante continuar como fundo social de ideais e aspirações que encoraja transformações econômicas, políticas e científicas. O Humanismo retrocedeu frente a concepções e práticas que se instalam até finalizado o Colonialismo, a Segunda Guerra Mundial e o alinhamento bipolar do planeta. Nesta situação, se reabre o debate sobre o significado do ser humano e a natureza, a justificativa das estruturas econômicas e políticas, a orientação da ciência e a tecnologia e, em geral, a direção dos eventos históricos.


Depois do longo caminho percorrido e das últimas discussões no campo das idéias, fica claro que o Humanismo deve redefinir sua posição não somente quanto a concepção teórica, mas também como atividade e prática social. Para isso, nos apoiaremos continuamente no seu Documento Fundacional.

O estado da questão humanista deve ser formulado hoje com referência às condições em que o ser humano vive. Tais condições não são abstratas. Por conseguinte, não é legítimo derivar ao Humanismo de uma teoria sobre a Natureza, ou uma teoria sobre a Historia, ou uma fé sobre Deus. A condição humana é tal que o encontro imediato com a dor e com a necessidade de superá-la é inevitável. Tal condição, comum a tantas outras espécies, encontra na humana a adicional necessidade de prever para o futuro como superar a dor e alcançar o prazer. Sua previsão a futuro se apóia na experiência passada e na intenção de melhorar sua situação atual. Seu trabalho, acumulado em produções sociais passa e se transforma de geração em geração em luta contínua para superar as condições naturais e sociais em que vive. Por isso, o Humanismo define o ser humano como ser histórico e com um modo de ação social capaz de transformar o mundo e sua própria natureza. Este ponto é de capital importância porque ao aceitá-lo não se poderá afirmar depois, coerentemente, um direito natural, uma propriedade natural, instituições naturais ou, por último, um tipo de ser humano no futuro, tal qual é hoje, como se ele estivesse terminado para sempre.

O antigo tema da relação do homem com a natureza adquire novamente importância. Ao retomá-lo, descobrimos esse grande paradoxo no qual o ser humano aparece sem fixidez, sem natureza, ao tempo que advertimos nele uma constante: sua historicidade. Por isso, esticando os termos, pode-se dizer que a natureza do homem é sua história; sua história social. Por conseguinte, cada ser humano que nasce não é um primeiro exemplar equipado geneticamente para responder a seu meio, mas um ser histórico que desenvolve sua experiência pessoal em uma paisagem social, em uma paisagem humana.

Eis aqui que neste mundo social, a intenção comum de superar a dor é negada pela intenção de outros seres humanos. Estamos dizendo que uns homens naturalizam a outros ao negarem sua intenção: os transformam em objeto de uso. Assim, a tragédia de estar submetido a condições físicas naturais impulsiona o trabalho social e a ciência para novas realizações que superem ditas condições; mas a tragédia de estar submetido a condições sociais de desigualdade e injustiça impulsiona o ser humano à rebelião contra essa situação na qual se adverte não o jogo de forças cegas, mas o jogo de outras intenções humanas. Essas intenções humanas que discriminam uns e outros são questionadas em um campo muito diferente ao da tragédia natural na qual não existe uma intenção. É por isso que em toda discriminação existe sempre um monstruoso esforço para estabelecer que as diferenças entre os seres humanos se devam à natureza, seja esta física ou social, que realiza seu jogo de forças sem que a intenção intervenha. Far-se-ão diferenças raciais, sexuais e econômicas justificando-as por leis genéticas ou do livre mercado, mas em todos os casos se haverá de operar com a distorção, a falsidade e a má fé.


As duas idéias básicas expostas anteriormente: em primeiro lugar, a da condição humana submetida à dor com seu impulso por superá-la e, em segundo lugar, a da definição do ser humano histórico e social põem o marco da questão para os humanistas de hoje. Sobre esses particulares, remeto ao livro Contribuições ao Pensamento de Silo, no ensaio intitulado: Discussões Historiológicas.


No Documento fundacional do Movimento Humanista, se declara que há de se passar da pré-história à verdadeira história humana só quando se eliminar a violenta apropriação animal de uns seres humanos por outros. Entretanto, não se poderá partir de outro valor central que o do ser humano pleno em suas realizações e na sua liberdade. A proclamação: "Nada acima do ser humano e nenhum ser humano embaixo de outro", sintetiza tudo isto. Se colocar como valor central Deus, o Estado, o Dinheiro ou qualquer outra entidade, se subordina o ser humano criando condições para seu ulterior controle ou sacrifício. Os humanistas temos claro este ponto. Os humanistas somos ateus ou crentes, mas não partimos do ateísmo ou da fé para fundamentar nossa visão do mundo e nossa ação; partimos do ser humano e de suas necessidades imediatas.

Assim, os humanistas fixamos posições. Não nos sentimos saídos do nada, mas tributários de um processo longo e de um esforço coletivo; comprometemo-nos com o momento atual e propomos uma longa luta para o futuro. Afirmamos a diversidade em franca oposição à regimentação que até agora foi imposta e apoiada em explicações de que o diverso põe em dialética os elementos de um sistema, de maneira que ao respeitar-se toda particularidade dá-se liberdade a forças centrífugas e desintegradoras.

Os humanistas pensamos o oposto e destacamos que, precisamente neste momento, o avassalamento da diversidade leva à explosão das estruturas rígidas. Por isso, é que enfatizamos na direção convergente, na intenção convergente e nos opomos à idéia e à prática da eliminação de supostas condições dialéticas em um conjunto dado.

Os humanistas reconhecemos os antecedentes do Humanismo histórico e nos inspiramos nos aportes das diferentes culturas, não somente naquelas que neste momento ocupam um lugar central; pensamos no porvir tratando de superar a crise presente; somos otimistas: acreditamos na liberdade e no progresso social.


Bibliografia
Conferência “A posição do Novo Humanismo”, Silo , S.S. de Jujuy,Argentina, 30-10-1995

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AS VIRTUDES

No momento atual, na vida social e pessoal, tende-se a enfatizar as dificuldades e o negativo de si mesmo e das pessoas que se relacionam com a gente.
Esta visão degradante de si mesmo gera uma atitude, uma forma de sentir e de viver muito particular, cujo resultado a curto ou médio prazo resultará negativo.
Não negamos que exista um grande número de dificuldades às que nos enfrentamos dia após dia. Mas é muito importante reconhecer que esta maneira de enfrentá-las é conseqüência de um sistema desumano que hoje se impõe e que tende a negativizar as pessoas.


Podemos repetir mecanicamente esta atitude, ou descobrir e fortalecer um modo de viver, pensar e sentir diferente, que se apóie no mais interessante de cada um. Que se apóie nas próprias virtudes.


Entendemos por virtude toda atitude que, levada à ação, nos põe em acordo com nós mesmos, independentemente de nossa habilidade para realizá-la, nos deixando um registro de profunda paz.


Se lembrarmos estas situações, veremos que possivelmente não só estarão ligadas a certas ações, mas a um modo de realizá-las no qual atuamos desde o melhor de cada um.


Se reconhecermos estas atitudes, se conseguimos tingir nosso diário acionar com este modo de fazer as coisas, reconheceremos não só nossas virtudes, mas também as dos demais, e certamente poderemos saltar por cima das dificuldades, modificar situações, e assim alcançar os objetivos de vida propostos.


Em todo caso, realizar uma lista das próprias virtudes (sejam estas atitudes, modos de comportamento, habilidades, atividades, etc.), e depois imaginar como se poderia potencializar ao máximo sua aplicação no mundo, resulta em um trabalho de muita importância para a própria vida e para a dos demais.


Este modo de fazer e sentir as coisas, este posicionamento frente à vida baseado nas próprias virtudes, deveria colocar-se em marcha desde agora. É a atitude que permite resolver dificuldades, avançar e construir em uma direção de vida coerente e positiva.