Início Antecedentes do Humanismo

ANTECEDENTES E PONTOS FUNDAMENTAIS DO HUMANISMO UNIVERSALISTA

Falaremos sobre uma corrente de pensamento que postula a ação transformadora e que começa a ser levada em conta graças às mudanças profundas que estão operando na sociedade. O Humanismo é esta corrente. Revisaremos, muito brevemente, seus antecedentes históricos, seu desenvolvimento e a situação em que se encontra atualmente.



Diferença entre corrente e atitude humanista


Devemos estabelecer, previamente, uma diferença entre o humanismo como corrente e o humanismo como atitude. Esta última já estava presente em diferentes culturas antes que a palavra “humanismo” fosse cunhada no Ocidente.

A atitude humanista é comum às diferentes culturas, em certos períodos de sua história e se caracteriza por:

  • A localização do ser humano como valor central;
  • A afirmação da igualdade de todos os seres humanos;
  • O reconhecimento da diversidade pessoal e cultural;
  • A tendência ao desenvolvimento do conhecimento acima do aceito como verdade absoluta;
  • A afirmação da liberdade de idéias e crenças
  • O repúdio da violência.


Esta atitude é o que conta em nosso Novo Humanismo Universalista e são as diferentes culturas as que nos ensinam a amar e praticar esta posição frente à vida. Remeto a quem interessar, ao estudo do humanismo nas diferentes culturas (Anuário 1994 do Centro Mundial de Estudos Humanistas, particularmente na contribuição do professor Serguei Semenov, estudioso do humanismo pré-colombiano em Meso-América e na América do Sul).


Devemos fazer também uma distinção, um tanto pueril, entre os estudos de “humanidades” que se compartilham nas faculdades ou institutos de estudos e a atitude pessoal não definida pela dedicação profissional, mas pelo posicionamento frente ao humano como preocupação central. Quando alguém se define como “humanista” não o faz com referência a seus conhecimentos de “humanidades” ao mesmo tempo em que um estudante ou estudioso dessas disciplinas não por isso se considera “humanista”. Deslizamos este comentário porque não faltaram os que ligaram o “humanismo” com um determinado tipo de conhecimento ou nível cultural.

No Ocidente, duas são as acepções que costumam ser atribuídas à palavra "humanismo". Fala-se de "humanismo" para indicar qualquer tendência de pensamento que afirme o valor e a dignidade do ser humano. Com este significado, pode-se interpretar o humanismo dos modos mais diversos e contrastantes. No seu significado mais limitado, mas colocando-o em uma perspectiva histórica precisa, o conceito de Humanismo é usado para indicar esse processo de transformação que se iniciou entre finais do século XIV e começos do XV e que, no século seguinte, com o nome de "Renascimento", dominou a vida intelectual da Europa. Basta mencionar Erasmo; Giordano Bruno; Galileu; Nicolas de Cusa; Tomás Moro; Juan Vives e Bouillé para compreender a diversidade e extensão do Humanismo histórico. Sua influência se prolongou por todo o século XVII e grande parte do XVIII, desembocando nas revoluções que abriram as portas da Idade Contemporânea. Esta corrente pareceu apagar-se lentamente até que em meados deste século começou a andar novamente no debate de pensadores preocupados pelas questões sociais e políticas.



Os aspectos fundamentais do Humanismo histórico foram, aproximadamente, os seguintes:


1.- A reação contra o modo de vida e os valores do Medieval. Assim, começa um forte reconhecimento de outras culturas, particularmente da greco-romana, na arte, na ciência e na filosofia.


2.- A proposta de uma nova imagem do ser humano, do qual se exaltam sua personalidade e sua ação transformadora.


3.- Uma nova atitude com respeito à natureza, à qual se aceita como ambiente do homem e já não como um submundo cheio de tentações e castigos.


4.- O interesse pela experimentação e investigação do mundo circundante, como uma tendência a buscar explicações naturais, sem necessidade de referências ao sobrenatural.

Esses quatro aspectos do Humanismo histórico convergem para um mesmo objetivo: fazer surgir a confiança no ser humano e sua criatividade, e considerar o mundo como reino do homem, reino ao qual este pode dominar mediante o conhecimento das ciências. A partir dessa nova perspectiva se expressa a necessidade de construir uma nova visão do universo e da história. Da mesma maneira, as novas concepções desse Humanismo histórico levam à reformulação da questão religiosa tanto nas suas estruturas dogmáticas e litúrgicas como nas organizativas que, naquele tempo, impregnaram as estruturas sociais do Medieval. O Humanismo, em correlato com a modificação das forças econômicas e sociais da época, representa uma revolução cada vez mais consciente e cada vez mais orientada para a discussão da ordem estabelecida. Mas, a Reforma no mundo alemão, anglo-saxão e a contra-reforma no mundo latino tratam de frear as novas idéias re-propondo autoritariamente a visão cristã tradicional. A crise passa da Igreja para as estruturas estatais. Finalmente, o império e a monarquia por direito divino são eliminados graças às revoluções de fins do século XVIII e XIX.


Mas, depois da Revolução francesa e das guerras da independência americanas, o Humanismo praticamente desapareceu não obstante continuar como fundo social de ideais e aspirações que encoraja transformações econômicas, políticas e científicas. O Humanismo retrocedeu frente a concepções e práticas que se instalam até finalizado o Colonialismo, a Segunda Guerra Mundial e o alinhamento bipolar do planeta. Nesta situação, se reabre o debate sobre o significado do ser humano e a natureza, a justificativa das estruturas econômicas e políticas, a orientação da ciência e a tecnologia e, em geral, a direção dos eventos históricos.


Depois do longo caminho percorrido e das últimas discussões no campo das idéias, fica claro que o Humanismo deve redefinir sua posição não somente quanto a concepção teórica, mas também como atividade e prática social. Para isso, nos apoiaremos continuamente no seu Documento Fundacional.

O estado da questão humanista deve ser formulado hoje com referência às condições em que o ser humano vive. Tais condições não são abstratas. Por conseguinte, não é legítimo derivar ao Humanismo de uma teoria sobre a Natureza, ou uma teoria sobre a Historia, ou uma fé sobre Deus. A condição humana é tal que o encontro imediato com a dor e com a necessidade de superá-la é inevitável. Tal condição, comum a tantas outras espécies, encontra na humana a adicional necessidade de prever para o futuro como superar a dor e alcançar o prazer. Sua previsão a futuro se apóia na experiência passada e na intenção de melhorar sua situação atual. Seu trabalho, acumulado em produções sociais passa e se transforma de geração em geração em luta contínua para superar as condições naturais e sociais em que vive. Por isso, o Humanismo define o ser humano como ser histórico e com um modo de ação social capaz de transformar o mundo e sua própria natureza. Este ponto é de capital importância porque ao aceitá-lo não se poderá afirmar depois, coerentemente, um direito natural, uma propriedade natural, instituições naturais ou, por último, um tipo de ser humano no futuro, tal qual é hoje, como se ele estivesse terminado para sempre.

O antigo tema da relação do homem com a natureza adquire novamente importância. Ao retomá-lo, descobrimos esse grande paradoxo no qual o ser humano aparece sem fixidez, sem natureza, ao tempo que advertimos nele uma constante: sua historicidade. Por isso, esticando os termos, pode-se dizer que a natureza do homem é sua história; sua história social. Por conseguinte, cada ser humano que nasce não é um primeiro exemplar equipado geneticamente para responder a seu meio, mas um ser histórico que desenvolve sua experiência pessoal em uma paisagem social, em uma paisagem humana.

Eis aqui que neste mundo social, a intenção comum de superar a dor é negada pela intenção de outros seres humanos. Estamos dizendo que uns homens naturalizam a outros ao negarem sua intenção: os transformam em objeto de uso. Assim, a tragédia de estar submetido a condições físicas naturais impulsiona o trabalho social e a ciência para novas realizações que superem ditas condições; mas a tragédia de estar submetido a condições sociais de desigualdade e injustiça impulsiona o ser humano à rebelião contra essa situação na qual se adverte não o jogo de forças cegas, mas o jogo de outras intenções humanas. Essas intenções humanas que discriminam uns e outros são questionadas em um campo muito diferente ao da tragédia natural na qual não existe uma intenção. É por isso que em toda discriminação existe sempre um monstruoso esforço para estabelecer que as diferenças entre os seres humanos se devam à natureza, seja esta física ou social, que realiza seu jogo de forças sem que a intenção intervenha. Far-se-ão diferenças raciais, sexuais e econômicas justificando-as por leis genéticas ou do livre mercado, mas em todos os casos se haverá de operar com a distorção, a falsidade e a má fé.


As duas idéias básicas expostas anteriormente: em primeiro lugar, a da condição humana submetida à dor com seu impulso por superá-la e, em segundo lugar, a da definição do ser humano histórico e social põem o marco da questão para os humanistas de hoje. Sobre esses particulares, remeto ao livro Contribuições ao Pensamento de Silo, no ensaio intitulado: Discussões Historiológicas.


No Documento fundacional do Movimento Humanista, se declara que há de se passar da pré-história à verdadeira história humana só quando se eliminar a violenta apropriação animal de uns seres humanos por outros. Entretanto, não se poderá partir de outro valor central que o do ser humano pleno em suas realizações e na sua liberdade. A proclamação: "Nada acima do ser humano e nenhum ser humano embaixo de outro", sintetiza tudo isto. Se colocar como valor central Deus, o Estado, o Dinheiro ou qualquer outra entidade, se subordina o ser humano criando condições para seu ulterior controle ou sacrifício. Os humanistas temos claro este ponto. Os humanistas somos ateus ou crentes, mas não partimos do ateísmo ou da fé para fundamentar nossa visão do mundo e nossa ação; partimos do ser humano e de suas necessidades imediatas.

Assim, os humanistas fixamos posições. Não nos sentimos saídos do nada, mas tributários de um processo longo e de um esforço coletivo; comprometemo-nos com o momento atual e propomos uma longa luta para o futuro. Afirmamos a diversidade em franca oposição à regimentação que até agora foi imposta e apoiada em explicações de que o diverso põe em dialética os elementos de um sistema, de maneira que ao respeitar-se toda particularidade dá-se liberdade a forças centrífugas e desintegradoras.

Os humanistas pensamos o oposto e destacamos que, precisamente neste momento, o avassalamento da diversidade leva à explosão das estruturas rígidas. Por isso, é que enfatizamos na direção convergente, na intenção convergente e nos opomos à idéia e à prática da eliminação de supostas condições dialéticas em um conjunto dado.

Os humanistas reconhecemos os antecedentes do Humanismo histórico e nos inspiramos nos aportes das diferentes culturas, não somente naquelas que neste momento ocupam um lugar central; pensamos no porvir tratando de superar a crise presente; somos otimistas: acreditamos na liberdade e no progresso social.


Bibliografia
Conferência “A posição do Novo Humanismo”, Silo , S.S. de Jujuy,Argentina, 30-10-1995

Notas Internacionais


Warning: file_put_contents(/home/httpd/vhosts/movimentohumanista.org/httpdocs/cache/ac6a2179a742ed1b110d61ed2a000aec.spc) [function.file-put-contents]: failed to open stream: Permission denied in /home/httpd/vhosts/movimentohumanista.org/httpdocs/libraries/simplepie/simplepie.php on line 7219

Warning: /home/httpd/vhosts/movimentohumanista.org/httpdocs/cache/ac6a2179a742ed1b110d61ed2a000aec.spc is not writeable in /home/httpd/vhosts/movimentohumanista.org/httpdocs/libraries/simplepie/simplepie.php on line 1511
© 2017 Movimento Humanista - Internacional This is a free Joomla-Template from funky-visions.de

A MUDANÇA E A CRISE

(Com base na Carta III, do Livro “Cartas a Meus Amigos”)


Nesta época de grande mudança estão em crises os indivíduos, as instituições e a sociedade. A mudança será cada vez mais rápida e também as crises individuais, institucionais e sociais. Isto anuncia perturbações que talvez não sejam assimiladas por amplos setores humanos.


As transformações que estão ocorrendo tomam direções inesperadas, produzindo desorientação geral a respeito do futuro e do que se deve fazer no presente. Na realidade não é a mudança o que nos perturba, já que nela observamos muitos aspectos positivos. O que nos inquieta é não saber em que direção vai a mudança, e para onde orientar nossa atividade.


A mudança está ocorrendo na economia, na tecnologia e na sociedade; sobretudo está operando em nossas vidas: em nosso meio familiar e trabalhista, em nossas relações de amizade. Estão se modificando nossas idéias e o que acreditávamos sobre o mundo, sobre as demais pessoas e sobre nós mesmos. Muitas coisas nos estimulam, mas outras nos confundem e paralisam. O comportamento dos demais e o próprio nos parecem incoerentes, contraditórios e sem direção clara, tal como ocorre com os eventos que nos rodeiam.


Portanto, é fundamental dar direção a essa mudança inevitável, e não há outra forma de fazê-lo a não ser começando por si mesmo. Em si mesmo deve dar-se direção a estas mudanças desordenadas cujo rumo desconhecemos. 


Como os indivíduos não existem isolados, se realmente direcionam sua vida modificarão a relação com outros: na sua família, no seu trabalho e onde eles atuarem. Este não é um problema psicológico que se resolve dentro da cabeça de indivíduos isolados, mas se resolve mudando a situação em que se vive com outros, mediante um comportamento coerente. Quando festejamos sucessos ou nos deprimimos pelos nossos fracassos, quando fazemos planos a futuro ou nos propomos a introduzir mudanças em nossa vida, esquecemos o ponto fundamental: estamos em situação de relação com outros. Não podemos explicar o que nos ocorre, nem escolher, sem referência a certas pessoas e a certos âmbitos sociais concretos. Essas pessoas que têm especial importância para nós e esses âmbitos sociais nos quais vivemos nos põem em uma situação precisa desde a qual pensamos, sentimos e atuamos. Negar isto ou não levá-lo em conta cria enormes dificuldades. Nossa liberdade de escolha e ação está delimitada pela situação em que vivemos. Qualquer mudança que desejemos operar não pode ser formulada em abstrato, mas com referência à situação em que vivemos.

O comportamento coerente 


Se pudéssemos pensar, sentir e atuar na mesma direção, se o que fazemos não nos criasse contradição com o que sentimos, diríamos que nossa vida tem coerência. Seríamos confiáveis ante nós mesmos, mesmo que não necessariamente confiáveis para nosso meio imediato. Deveríamos alcançar essa mesma coerência na relação com outros tratando os demais como quiséssemos ser tratados. Sabemos que pode existir uma espécie de coerência destrutiva como observamos nos racistas, nos exploradores, nos fanáticos e nos violentos, mas está clara sua incoerência na relação porque tratam a outros de um modo muito diferente ao que desejam para si mesmos. Essa unidade de pensamento, sentimento e ação, essa unidade no trato que se pede e o trato que se dá, são ideais que não se realizam na vida diária. Este é o ponto. Trata-se de um ajuste de condutas a essas propostas, trata-se de valores que, tomados com seriedade, direcionam a vida independentemente das dificuldades que se enfrentem para realizá-los. Se observarmos bem as coisas, não estaticamente, mas em dinâmica, compreenderemos isto como uma estratégia que deve ir ganhando terreno à medida que o tempo passe. Aqui sim valem as intenções, mesmo que as ações não coincidam ao começo com elas, sobretudo se aquelas intenções são mantidas, aperfeiçoadas e ampliadas. Essas imagens do que se deseja alcançar são referências firmes que dão direção em toda situação. E isto que dizemos não é tão complicado. Não nos surpreende, por exemplo, que uma pessoa oriente sua vida para alcançar uma grande fortuna; no entanto, esta pode saber antecipadamente que não a alcançará. De todas as maneiras, seu ideal a impulsiona mesmo que não tenha resultados relevantes. Por que então, não é possível entender que, mesmo que a época seja adversa a relacionar o trato que se pede com o trato que se dá, mesmo que seja adversa a pensar, sentir e atuar na mesma direção, esses ideais de vida podem dar direção às ações humanas?

As duas propostas 


Pensar, sentir e atuar na mesma direção, e tratar a outros como desejamos ser tratados, são duas propostas tão simples que podem ser entendidas como simples ingenuidades por gente habituada às complicações. No entanto, por trás dessa aparente candura há uma nova escala de valores, em cujo ponto mais alto se põe a coerência; uma nova moral para a que não é indiferente qualquer tipo de ação; uma nova aspiração que implica sermos consequentes no esforço para dar direção aos eventos humanos. Por trás dessa aparente candura se aposta pelo sentido da vida pessoal e social que será verdadeiramente evolutivo ou marchará à desintegração. Não podemos já confiar em que velhos valores dêem coesão às pessoas em um tecido social que dia a dia se deteriora pela desconfiança, o isolamento e o individualismo crescentes. A antiga solidariedade entre os membros de classes, associações, instituições e grupos vai sendo substituída pela concorrência selvagem à qual não escapa o casal nem a irmandade familiar. Neste processo de demolição não se elevará uma nova solidariedade sobre a base de idéias e comportamentos de um mundo que se foi, mas graças à necessidade concreta de cada um de direcionar sua vida, para o qual terá que modificar seu próprio meio. Essa modificação, se for verdadeira e profunda, não pode ser posta em marcha por imposições, por leis externas ou por fanatismos de qualquer tipo, mas pelo poder da opinião e da ação mínima conjunta entre as pessoas que fazem parte do meio em que cada um vive. 

Chegar a toda a sociedade a partir do meio imediato


Sabemos que ao mudar positivamente nossa situação, estaremos influindo em nosso meio, e outras pessoas compartilharão este ponto de vista dando lugar a um sistema de relações humanas em crescimento. Teremos que nos perguntar: por que deveríamos ir além de onde começamos? Simplesmente por coerência com a proposta de tratar aos outros como queremos que nos tratem. Ou por acaso não levaríamos aos demais algo que foi fundamental para nossas vidas? Se a influência começa a desenvolver-se é porque as relações e, portanto, os componentes de nosso meio, se ampliaram. Esta é uma questão que deveríamos levar em conta desde o começo, porque ainda quando nossa ação começa aplicando-se em um ponto reduzido, a projeção dessa influência pode chegar muito longe. Não tem nada de estranho pensar que outras pessoas decidam somar-se na mesma direção. Depois de tudo, os grandes movimentos históricos seguiram o mesmo caminho: começaram pequenos, como é lógico, e se desenvolveram graças ao fato de que as pessoas os consideraram intérpretes de suas necessidades e inquietações. Atuar no meio imediato, mas com o olhar colocado no progresso da sociedade, é coerente com tudo o dito. De outro modo, para que faríamos referência a uma crise global que deve ser enfrentada resolutamente se tudo terminasse em indivíduos isolados para quem os demais não têm importância? Por necessidade de pessoas que coincidam em dar uma nova direção a sua vida e aos eventos, surgirão âmbitos de discussão e comunicação direta. Mais adiante, a difusão através de todos os meios permitirá ampliar a superfície de contato. Outro tanto ocorrerá com a criação de organismos e instituições compatíveis com este planejamento.



O meio em que se vive


Já comentamos que é tão veloz e tão inesperada a mudança, que este impacto é recebido como crise ,na qual se debatem sociedades inteiras, instituições e indivíduos. Por isso é imprescindível dar direção aos eventos. No entanto, como poderia fazê-lo cada um, submetido como está à ação de fatos maiores? É evidente que cada um pode direcionar somente aspectos imediatos de sua vida, e não o funcionamento das instituições nem da sociedade. Por outra parte, pretender dar direção à própria vida não é coisa fácil, já que cada qual vive em situação; não vive isolado, e sim em um meio. A este meio podemos vê-lo tão amplo como o Universo, a Terra, o país, o Estado, etc. No entanto, há um meio imediato que é onde desenvolvemos nossas atividades. Tal meio é o familiar, o trabalhista, o de amizades, etc. Vivemos em situação com referência a outras pessoas, e esse é o nosso mundo particular do qual não podemos prescindir. Ele atua sobre nós e nós sobre ele de um modo direto. Caso tenhamos alguma influência, é sobre esse meio imediato. Mas ocorre que tanto a influência que exercemos como a que recebemos estão afetadas, por sua vez, por situações mais gerais, pela crise e a desorientação.

A coerência como direção de vida


Se quisesse dar alguma direção aos eventos seria preciso começar pela própria vida e, para fazê-lo, teríamos que levar em conta o meio no qual atuamos. Mas a que direção podemos aspirar? Sem dúvida, à que nos proporcione coerência e apoio em um meio tão cambiante e imprevisível. Pensar, sentir e atuar na mesma direção é uma proposta de coerência na vida. No entanto, isto não é fácil porque nos encontramos em uma situação que não escolhemos completamente. Estamos fazendo coisas que necessitamos mesmo que em grande desacordo com o que pensamos e sentimos. Somos colocados em situações que não governamos. Atuar com coerência mais que um fato é uma intenção, uma tendência que podemos ter presente de maneira que nossa vida vá direcionando-se para esse tipo de comportamento. É claro que unicamente poderemos mudar parte de nossa situação, se influímos nesse meio. Ao fazê-lo, estaremos direcionando a relação com outros e outros compartilharão tal conduta. Se ao anterior se objeta que algumas pessoas mudam de meio com certa freqüência em razão de seu trabalho ou por outros motivos, responderemos que isso não modifica em nada o formulado, já que sempre se estará em situação, sempre se estará em um meio dado. Se pretendermos coerência, o trato que dermos aos demais terá que ser do mesmo gênero que o trato que exigimos para nós. Assim, nestas duas propostas encontramos os elementos básicos de direção até onde chegam nossas forças. A coerência avança conforme avança o pensar, sentir e atuar na mesma direção. Esta coerência se estende a outros, porque não há outra forma de fazê-lo, e ao estender-se a outros começamos a tratá-los do modo que queremos ser tratados. Coerência e solidariedade são direções, aspirações de condutas a alcançar.

A proporção das ações como avanço para a coerência


Como avançar em direção coerente? Em primeiro lugar, necessitaremos certa proporção no que fazemos cotidianamente. É necessário estabelecer quais são as questões mais importantes em nossa atividade. Devemos priorizar o fundamental para que as coisas funcionem, depois vermos o secundário, e assim em diante. Possivelmente ao atender a duas ou três prioridades tenhamos um bom quadro de situação. As prioridades não podem inverter-se, tampouco podem separar-se tanto que se desequilibre nossa situação. As coisas devem ir em conjunto, não isoladamente, evitando que umas se antecipem e outras se atrasem. Freqüentemente nos cegamos pela importância de uma atividade e, desta sorte, desequilibra-nos o conjunto; no fim o que considerávamos tão importante também não pode realizar-se porque nossa situação geral ficou afetada. Também é certo que às vezes se apresentam assuntos de urgência aos que devemos nos dedicar, mas é claro que não se pode viver adiando  outros que dizem respeito  ao cuidado da situação geral em que vivemos. Estabelecer prioridades e levar a atividade em proporção adequada é um avanço evidente em direção à coerência.

A oportunidade das ações como avanço para a coerência


Existe uma rotina cotidiana dada pelos horários, os cuidados pessoais e o funcionamento de nosso meio. No entanto, dentro dessas pautas há uma dinâmica e riqueza de eventos que as pessoas superficiais não sabem apreciar. Há os que confundem sua vida com suas rotinas, mas isto não é assim em absoluto já que muito freqüentemente devem escolher dentro das condições que o meio lhes impõe. A propósito, vivemos entre inconvenientes e contradições, mas convirá não confundir ambos os termos. Entendemos por “inconvenientes” às moléstias e impedimentos que enfrentamos. Não são enormemente graves, mas sem dúvida que, se são numerosos e repetidos, acrescentam a nossa irritação e fadiga. A propósito, estamos em condições de superá-los. Não determinam a direção de nossa vida nem impedem que levemos adiante um projeto, são obstáculos no caminho que vão desde a menor dificuldade física a problemas pelos quais estamos a ponto de perder o rumo. Os inconvenientes admitem uma graduação importante, mas se mantêm em um limite que não impede avançar. Algo diferente ocorre com o que chamamos «contradições». Quando nosso projeto não pode ser realizado, quando os eventos nos lançam em uma direção oposta à desejada, quando nos encontramos em um círculo vicioso que não podemos romper, quando não podemos direcionar minimamente a nossa vida, estamos tomados pela contradição. A contradição é uma sorte de investimento na correnteza da vida que nos leva a retroceder sem esperança. Estamos descrevendo o caso em que a incoerência se apresenta com maior crueza. Na contradição, o que pensamos, sentimos e fazemos se opõem entre si. Apesar de tudo, sempre há possibilidade de direcionar a vida, mas é necessário saber quando fazê-lo. A oportunidade das ações é algo que não levamos em conta na rotina cotidiana, e isto acontece porque muitas coisas estão codificadas. Mas em referência aos inconvenientes importantes e às contradições, as decisões que tomamos não podem estar expostas à catástrofe. Em termos gerais, devemos retroceder ante uma grande força e avançar com resolução quando essa força se debilitar. Há uma grande diferença entre o temeroso que retrocede ou se imobiliza ante qualquer inconveniente e o que atua sobrepondo-se às dificuldades, sabendo precisamente que avançando pode superá-las. Ocorre, às vezes, que não é possível avançar porque um problema superior a nossas forças aparece, e arremeter sem cálculo nos leva ao desastre. O grande problema que enfrentemos será também dinâmico e a relação de forças mudará, porque vamos crescendo em influência, ou porque a influência do problema diminui. Quebrada a relação anterior, é momento de proceder com resolução, já que uma indecisão ou uma postergação fará com que novamente se modifiquem os fatores. A execução da ação oportuna é a melhor ferramenta para produzir mudanças de direção.

A adaptação crescente como avanço para a coerência


Consideremos o tema da direção, da coerência que queremos alcançar. Adaptarmo-nos a certas situações está relacionado a essa proposta, porque nos adaptarmos ao que nos leva em direção oposta à coerência é uma grande incoerência. Os oportunistas padecem de uma grande miopia a respeito deste tema. Eles consideram que a melhor forma de viver é a aceitação de tudo; pensam que aceitar tudo desde que provenha de quem tem poder é uma grande adaptação, mas é claro que sua vida dependente está muito longe do que entendemos por coerência. Distinguimos entre a inadaptação, que nos impede de ampliar nossa influência, a adaptação decrescente que nos deixa na aceitação das condições estabelecidas, e a adaptação crescente que faz crescer nossa influencia em direção às propostas que viemos comentando.

Sintetizemos o dito:


1.- Há uma mudança veloz no mundo, motorizada pela revolução tecnológica, que está se chocando com as estruturas estabelecidas e com a formação e os hábitos de vida das sociedades e os indivíduos.

2.- Esta defasagem gera crises progressivas em todos os campos e não há por que supor que se deterá mas, inversamente, tenderá a se incrementar.

3.- O inesperado dos eventos impede prever que direção tomarão os fatos, as pessoas que nos rodeiam e, definitivamente, nossa própria vida.

4.- Muitas das coisas que pensávamos e achávamos já não nos servem. Também não estão à vista soluções que provenham de alguma sociedade, instituições ou indivíduos que padecem do mesmo mal.

5.- Se decidirmos trabalhar para fazer frente a estes problemas teremos que dar direção a nossa vida, buscando coerência entre o que pensamos, sentimos e fazemos. Como não estamos isolados, essa coerência terá que chegar à relação com outros, tratando-os do modo que desejamos para nós. Estas duas propostas não podem ser cumpridas rigorosamente, mas constituem a direção que necessitamos, sobretudo se as tomamos como referências permanentes e aprofundamo-nos nelas.

6.- Vivemos em relação imediata com outros, e é nesse meio onde devemos atuar para dar direção favorável a nossa situação. Esta não é uma questão psicológica, uma questão que possa ajeitar-se na cabeça isolada dos indivíduos, este é um tema relacionado com a situação em que se vive.

7.- Sendo coerentes com as propostas que tratamos de levar adiante, chegaremos à conclusão de que o positivo para nós e nosso meio imediato deve ser ampliado a toda a sociedade. Junto a outros que coincidem na mesma direção, encontraremos os meios mais adequados para que uma nova solidariedade encontre seu rumo. Por isso, ainda atuando tão especificamente em nosso meio imediato, não perderemos de vista uma situação global que afeta todos os seres humanos, e que requer nossa ajuda assim como nós necessitamos a ajuda dos demais.

8.- As mudanças inesperadas nos levam a considerar seriamente a necessidade de direcionar nossas vidas.

9.- A coerência não começa e termina em si mesmo mas está relacionada com um meio, com outras pessoas. A solidariedade é um aspecto da coerência pessoal.

10.- A proporção nas ações consiste em estabelecer prioridades de vida e operar com base nelas, evitando o desequilíbrio.

11.- A oportunidade do acionar leva em conta retroceder ante uma grande força e avançar com resolução quando esta se debilita. Esta idéia é importante aos efeitos de produzir mudanças na direção da vida se estamos submetidos à contradição.

12.- É tão inconveniente a desadaptação em um meio no qual não podemos mudar nada, como a adaptação decrescente na qual nos limitamos a aceitar as condições estabelecidas. A adaptação crescente consiste no aumento de nossa influência no meio e em direção coerente.


Bibliografia
Silo, Obras Completas, Volume I, “Cartas a meus Amigos”, Terceira carta a meus amigos.