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IMAGEM E ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO

(Com base na primeira parte do livro Contribuições ao Pensamento: Psicologia da imagem)

Distinções entre sensação, percepção e imagem

 

Provisoriamente, entendemos a sensação como o registro que se obtém ao detectar um estímulo proveniente do meio externo ou interno e que faz variar o tom de trabalho do sentido afetado. Mas, o estudo da sensação deve ir mais longe quando comprovamos que há sensações que acompanham os atos do pensar, do recordar, do perceber, etc. Em todos os casos, se produz uma variação do tom de trabalho de algum sentido, ou de um conjunto de sentidos (como ocorre na sinestesia), mas é claro que não se "sente" do pensar na mesma forma e modo que se "sente" de um objeto externo. E, então, a sensação aparece como uma estruturação que efetua a consciência em seu afazer sintético, mas que é analisada arbitrariamente para descrever sua fonte originária, para descrever o sentido do qual parte seu impulso.

De nossa parte, entenderemos a percepção como uma estruturação de sensações efetuadas pela consciência referindo-se a um sentido ou a vários sentidos.

            E no que tange à imagem, a entendemos como uma representação estruturada e formalizada das sensações ou percepções que provêm ou provieram do meio externo ou interno. A imagem, pois, não é "cópia", mas síntese, intenção e, portanto, também não  é mera passividade da consciência.

 

 

O registro interno de acontecer a imagem em algum “lugar”

Este teclado que tenho ante meus olhos, no acionar de cada tecla vai imprimindo um caráter gráfico que visualizo no monitor ligado a ele. Associo o movimento de meus dedos a cada letra e automaticamente as frases e sentenças decorrem, seguindo meu pensamento. Fecho os olhos e deixo de pensar no discurso anterior para concentrar-me no teclado. De algum modo o tenho "ai adiante", representado em imagens visuais, quase calcado da percepção que tinha antes de fechar os olhos. Levanto-me da cadeira, caminho alguns passos pela habitação, fecho novamente os olhos e ao lembrar o teclado o imagino globalmente às minhas costas, já que se quero observá-lo tal qual se apresentou anteriormente à minha percepção devo localizá-lo em posição  "ante meus olhos". Para isso, ou giro mentalmente meu corpo, ou "transporto" do "espaço externo" a máquina, até colocá-la à minha frente. A máquina agora está "frente aos meus olhos", mas produzi uma deslocação do espaço já que na minha frente, se abro as pálpebras, verei uma janela.

Tornou-se evidente para mim que a localização do objeto na representação, se coloca em um "espaço" que pode não coincidir com o espaço no qual aconteceu a percepção original.

Posso, além disso, imaginar o teclado colocado na janela que tenho na minha frente e distanciar ou aproximar o conjunto.

Se fosse o caso, posso aumentar ou diminuir o tamanho de toda a cena ou de algum de seus componentes; também posso deformar estes corpos e, por último, nada impede que mude sua coloração.

Mas descubro algumas impossibilidades. Não posso, por exemplo, imaginar esses objetos sem coloração por mais que os faça “transparentes", já que essa "transparência" marcará contornos ou diferenças precisamente de cor ou acaso "sombreados" distintos. É claro que estou comprovando que a extensão e a cor são conteúdos não independentes e por isso, tampouco posso imaginar uma cor sem extensão. Isto é, precisamente, o que me faz refletir que se não posso representar a cor sem extensão, a extensão da representação denota também a "espacialidade" na que se localiza o objeto representado. É esta espacialidade que nos interessa.

 

Imagem da percepção e percepção da imagem

Assim, pois, se frente ao teclado fecho os olhos, poderei esticar meus dedos e acertar com aproximada exatidão seguindo a imagem que, neste caso, trabalhará como "traçadora" de meus movimentos. Se, em troca, situo a imagem no lado esquerdo do espaço de representação, meus dedos seguirão o "traçado" para a esquerda e é claro que não coincidirão com o teclado externo. Se, ato seguido, "internalizo" a imagem para o centro do espaço de representação (colocando a imagem do teclado "dentro da minha cabeça"), o movimento dos meus dedos tenderá a inibir-se. Inversamente, se "externalizar" a imagem vários metros adiante, experimentarei a tendência não só dos dedos, mas de zonas mais amplas do corpo, nessa direção.

Do mesmo modo em que as percepções do mundo "externo" se correspondem com imagens "externalizadas" ("fora" do registro sinestésico-tátil da cabeça, "dentro" de cujo limite permanece o "olhar" do observador), as percepções do mundo "interno" se correspondem com representações "internalizadas" ("dentro" dos limites do registro sinestésico-tátil, que por sua vez é "olhado" também desde "dentro" de dito limite, mas deslocado de sua posição central que agora é ocupada pelo "olhado").

 

A aptidão de transformismo da representação

Em nosso exemplo, vimos como o teclado podia ser alterado na sua cor, forma, tamanho, posição, perspectiva, etc. É claro que, além disso, podemos “recrear” completamente nosso objeto até fazer irreconhecível ao original.


Mas se, finalmente, nosso teclado fica transformado em uma pedra (assim como o príncipe em sapo), ainda quando todas as características em nossa nova imagem sejam as de uma pedra, para nós essa pedra será o teclado transformado... Tal reconhecimento será possível graças à lembrança, à história que mantemos viva em nossa representação. De modo que a nova imagem visual há de ser uma estruturação já não visual, mas de outro tipo. É precisamente a estruturação, na qual se dá a imagem a que nos permite estabelecer reconhecimentos, climas e tons afetivos, que fazem ao objeto em questão, mesmo que este tenha desaparecido ou se encontre severamente modificado.


Inversamente, podemos observar que a modificação da estrutura geral produz variações na imagem (enquanto que lembrada ou sobreposta à percepção).
Nos encontramos em um mundo no qual a percepção parece informar-nos sobre suas variações ao tempo que a imagem, atualizando memória, nos lança a interpretar e a modificar os dados que provêm desse mundo. De acordo com isto, a toda percepção corresponde uma representação que indefectivelmente modifica os dados da “realidade”. Dito de outro modo: a estrutura percepção-imagem é um comportamento da consciência no mundo, cujo sentido é a transformação desse mundo.

 

Imagem, paisagem e transformação  

Quando percebo o mundo externo, quando cotidianamente me desenvolvo nele, o constituo não somente pelas representações que me permitam reconhecer e agir senão que o constituo também por sistemas copresentes de representação. A essa estruturação que faço do mundo a chamo "paisagem" e comprovo que a percepção do mundo é sempre reconhecimento e interpretação de uma realidade, de acordo com minha paisagem. Esse mundo que tomo pela realidade mesma é minha própria biografia em ação e essa ação de transformação que efetuo no mundo é minha própria transformação. E quando falo de meu mundo interno, falo também da interpretação que dele faço e da transformação que nele efetuo.

As distinções que fizemos até aqui entre espaço "interno" e espaço "externo", baseadas nos registros de  limite que as percepções sinestésico-táteis põem, não podem ser efetuadas quando falamos desta globalidade da consciência-no-mundo para a qual o mundo é sua "paisagem" e o eu é seu "olhar". Este modo da consciência estar no mundo é basicamente um modo de ação em perspectiva cuja referência espacial imediata é o próprio corpo, não já somente o intracorpo. Mas, o corpo ao ser objeto do mundo é também objeto da paisagem e objeto de transformação. O corpo termina devindo prótese da intencionalidade humana.

Se as imagens permitem reconhecer e agir, então, conforme a paisagem se estruturar em indivíduos e povos, conforme forem as necessidades destes (ou o que considerem que sejam suas necessidades), assim tenderão a transformar o mundo.


 

Bibliografia ampliatoria


Silo, Obras Completas, Volume I, “Contribuições ao Pensamento” - Psicologia da Imagem.

 
Silo, Obras Completas, Volume I, “Fala Silo” - Conferência de apresentação do Livro “Contribuições ao Pensamento”.


Silo, Obras Completas, Volume I, “Fala Silo” - Bate-papo “Sobre o enigma da percepção”, Las Palmas de Gran Canaria 01/10/78.


Silo, Obras Completas, Volume II, “Apontamentos de Psicologia” – Psicologia II.


Luis A. Ammann, “Autoliberação” – Vocabulário.



Notas Internacionais


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A VERDADEIRA SOLIDARIEDADE

Consideremos estas idéias: “Onde há sofrimento e posso fazer algo para aliviá-lo, tomo a iniciativa. Onde não posso fazer nada, sigo meu caminho alegremente”.
Semelhantes idéias parecem práticas, mas nos deixam o sabor de falta de solidariedade. Como seguir em frente alegremente deixando para trás o sofrimento, desentendendo-nos do pesar alheio?


Vejamos um exemplo. No meio da calçada, um homem cai em violentas convulsões. Os transeuntes se concentram, dando instruções contraditórias e criando ao redor do doente um cerco asfixiante. Muitos se preocupam, mas não são efetivos. Talvez quem chame urgentemente ao médico, ou aquele outro que põe a raia aos curiosos para evitar o aglomeramento, sejam os mais ajuizados. Eu posso ser um dos que tomam a iniciativa, ou talvez um terceiro que consegue algo positivo e prático em tal situação. Mas se atuo por simples solidariedade criando confusão, ou obstaculizando aos que podem fazer algo prático, não ajudo, e sim prejudico.


O anterior é compreensível, mas que quer dizer: “…Onde não posso fazer nada, sigo meu caminho alegremente”? Não quer dizer que estou muito contente por isso que sucedeu. Quer dizer que minha direção não deve ser entorpecida pelo inevitável; quer dizer que não devo somar problemas aos problemas; quer dizer que devo positivizar o futuro, já que o oposto não é bom para outros nem para mim.


Há pessoas que, com uma mal entendida solidariedade, negativizam quem quer ajudar e prejudicam a elas mesmas. Essas são diminuições da solidariedade, porque a energia perdida nesse comportamento deveria haver-se aplicado em outra direção, em outras pessoas, em outras situações nas quais efetivamente tivesse obtido resultados práticos. Quando falamos de resultados práticos, não nos referimos somente ao brutalmente material, porque até um sorriso ou uma palavra de encorajamento podem ser úteis se existe uma possibilidade de que ajudem.