Início Formas de Violência

AS DIFERENTES FORMAS DE VIOLÊNCIA

A violência é uma metodologia de ação.


Assim, Silo no dicionário do Novo Humanismo define a violência como: “... É o mais simples, freqüente e eficaz modo para manter o poder e a supremacia, impor a vontade própria a outros, para usurpar o poder, a propriedade e ainda as vidas alheias...”, para mais adiante expressar:


“... A violência penetrou em todos os aspectos da vida: se manifesta constante e cotidianamente na economia (exploração do homem pelo homem, coação do Estado, dependência material, discriminação do trabalho da mulher, trabalho infantil, imposições injustas, etc.), na política (o domínio de um ou vários partidos, o poder do chefe, o totalitarismo, a exclusão dos cidadãos na tomada de decisões, a guerra, a revolução, a luta armada pelo poder, etc.), na ideologia (implantação de critérios oficiais, proibição do livre pensamento, subordinação dos meios de comunicação, manipulação da opinião pública, propaganda de conceitos de fundo violento e discriminador que resultam cômodos à elite governante, etc.), na religião (submissão dos interesses do indivíduo aos requerimentos clericais, controle severo do pensamento, proibição de outras crenças e perseguição de hereges), na família (exploração da mulher, ditado sobre os filhos, etc.), no ensino (autoritarismos de professores, castigos corporais, proibição de programas livres de ensino, etc.), no exército (voluntarismo de chefes, obediência irreflexiva de soldados, castigos, etc.), na cultura (censura, exclusão de correntes inovadoras, proibição de editar obras, ditados da burocracia, etc.,).


“Quando se fala de violência, geralmente se faz alusão à violência física, por ser esta a expressão mais evidente da agressão corporal. Outras formas como a violência econômica, racial, religiosa, sexual, etc., em algumas ocasiões podem atuar ocultando seu caráter, desembocando, definitivamente, no avacalhamento da intenção e a liberdade humanas. Quando estas se evidenciam, se exercem também por coação física”.

 

Cotidianamente podemos reconhecer que a maior parte destas formas de violência que se mencionam são exercidas de forma encoberta, por isso dificilmente são identificadas pelas povoações como tais.

 
Observamos que todos os feitos de violência física encontram sua origem nessas outras formas de violência. Definitivamente, estas são o germe que termina disparando respostas de violência física.


E quando esta resposta “visível” chega, costuma-se tentar ações para revertê-la, sem advertir que esta é só a conseqüência, o último elo de uma corrente de outras violências que passam inadvertidas para todos, menos para quem a padece.
E essa resposta pode provir do poderoso, exercendo-a sobre aquele que se rebela e a quem já não pode disciplinar, ou se expressa como reação exercida por aquele que padeceu violências de todo tipo.


A violência econômica, por exemplo, exercida pelos governos sobre as povoações, geralmente sobre as camadas mais desempossadas, não mostra seu verdadeiro rosto desde o início. Os governantes ao invés disso a disfarçam, já que necessitam captar a “confiança” e os votos dos povos, e estes não advertem o germe da violência que já está instalado.

Só quando se estende o desespero pela perda de postos de trabalho, se restringe o acesso à saúde, à educação, começam a crescer a marginação, o trabalho infantil, a deserção escolar, para mencionar só algumas, somente então as populações reagem e os poderes “disciplinam” toda tentativa de repúdio com repressão.


Os poderes estabelecidos sempre têm recursos para utilizar no interior dos países, ou desde fora para ameaçar e extorquir ante a mínima tentativa de “desobediência”. Ame-aça de invasão e de guerra para impor condições.

 
Assim a corrente de violência que se inicia em um lugar, sobre um setor ou sobre um povo, não encontra limite no seu desdobramento no afã de concentração de poder político e econômico. Se a isto somamos o ingrediente de que o poder econômico a nível mundial se apóia em um dos negócios mais rentáveis como é a fabricação de armamentos, o panorama está completo.


então se adverte a violência, que já estava na própria origem deste processo.
Somente então se compreende que a violência física suscitada tem sua origem na violência econômica exercida desde o poder.


Porém, nessas alturas, as nefastas conseqüências da violência física que se suscita já não têm remédio, são inevitáveis.

Também no Dicionário do Novo Humanismo expressa-se que “Uma tarefa especial das forças autenticamente humanistas consiste em superar os rasgos agressivos da vida social: propiciar a harmonia, a não–violência, a tolerância e a solidariedade”

Existe uma atitude de rejeição generalizada pela violência.


No entanto, nos perguntamos onde está essa sociedade enfastiada de violência, quando em cada sinal de trânsito vemos um desfile de crianças e adolescentes pedindo esmola, sabendo que estão à mercê de qualquer oferecimento que se faça em troca de uma moeda.


E em que lugar de sua justificada moral, se põe a imagem de tanto menino que vê diariamente, revirando lixo, comendo lixo, juntando papelões, explorados e abusados desde todos os pontos de vista.


Onde está a sensibilidade dessa sociedade, que não a impulsiona na mais mínima reação pela promoção de políticas que mudem a situação para essas crianças?
Como é que não se adverte que, justamente aí, gera-se um caldo de cultivo para suscitar um processo de violência de conseqüências imprevisíveis, para eles e para o resto da sociedade?


E se advertido, como é que a sociedade não se organiza para exigir uma drástica mudança de condições como imperativo para acabar com a violência?
As campanhas e ações contra a violência para o meio ambiente e os animais ganharam mais adeptos que uma ação combinada para expatriar a violência sobre o ser humano.


De fato, não há marchas em massa nas quais a sociedade toda se envolva indiscriminadamente, para exigir que se efetivem os direitos da infância, ou de repúdio à exploração infantil - tão à vista de todos-, ou por igualdade de oportunidades para os jovens ou contra o negócio da droga.


Enquanto isso, os cidadãos sensíveis exibem orgulhosamente a organização de correntes humanas pela defesa dos “direitos das baleias”...

 
Certamente, se a sociedade no seu conjunto advertisse essa multiplicidade de formas de violência, que vão se entrelaçando afetando amplas capas da população, e brigasse de modo contundente e decidido pela sua desarticulação, estaria operando não já sobre as conseqüências, mas sobre as causas da violência, evitando assim doenças irremediáveis.


Se quisermos operar sobre os fatores que geram violência, temos que advertir que quando se produz um fato de violência física, já é tarde, já se suscitou esse processo

no interior das pessoas, gerado certamente desde fora, e que deixa o verdadeiro responsável impune.


O passo prévio é o reconhecimento desse germe que também podemos reconhecer em cada um de nós, e que podemos desarticular, evitando uma situação de conseqüências não desejadas.


Necessitamos deter-nos um momento, observar as injustiças sociais e considerar que semelhante violência necessariamente terá derivações catastróficas: transbordes sociais, reclamações em massa, com um alto componente de violência (impotência) e fatalmente correspondida com uma repressão brutal.

 

Temos direito a viver sem violência, sem padecer e sem que outros a padeçam para alcançar o ideal de paz.


Isto requer de uma ação combinada da comunidade internacional, de cada governo e cada povo e de cada pessoa. Silo disse, em tal sentido, a ação que corresponde a cada um:


“É preciso fazer algo, se escuta em todas as partes. Pois bem, eu direi o que é preciso fazer.


Eu digo que na ordem internacional, todos os que estão invadindo territórios deveriam retirar-se de imediato e acatar as resoluções e recomendações das Nações Unidas.


Digo que na ordem interna das nações deveria se trabalhar para fazer funcionar a lei e a justiça, por imperfeitas que sejam, antes do que endurecer leis e disposições repressivas que cairão nas mesmas mãos dos que entorpecem a lei e a justiça.


Digo que na ordem doméstica a gente deveria cumprir o que predica saindo de sua retórica hipócrita que envenena às novas gerações.


Digo que na ordem pessoal, cada um deveria se esforçar para conseguir que coincidisse o que pensa com o que sente e o que faz, modelando uma vida coerente e escapando da contradição que gera violência”
(Punta de Vacas 4 de maio de 2004)




Bibliografia
Silo, Obras Completas, Volume II, “Dicionário do Novo Humanismo”

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A MUDANÇA E A CRISE

(Com base na Carta III, do Livro “Cartas a Meus Amigos”)


Nesta época de grande mudança estão em crises os indivíduos, as instituições e a sociedade. A mudança será cada vez mais rápida e também as crises individuais, institucionais e sociais. Isto anuncia perturbações que talvez não sejam assimiladas por amplos setores humanos.


As transformações que estão ocorrendo tomam direções inesperadas, produzindo desorientação geral a respeito do futuro e do que se deve fazer no presente. Na realidade não é a mudança o que nos perturba, já que nela observamos muitos aspectos positivos. O que nos inquieta é não saber em que direção vai a mudança, e para onde orientar nossa atividade.


A mudança está ocorrendo na economia, na tecnologia e na sociedade; sobretudo está operando em nossas vidas: em nosso meio familiar e trabalhista, em nossas relações de amizade. Estão se modificando nossas idéias e o que acreditávamos sobre o mundo, sobre as demais pessoas e sobre nós mesmos. Muitas coisas nos estimulam, mas outras nos confundem e paralisam. O comportamento dos demais e o próprio nos parecem incoerentes, contraditórios e sem direção clara, tal como ocorre com os eventos que nos rodeiam.


Portanto, é fundamental dar direção a essa mudança inevitável, e não há outra forma de fazê-lo a não ser começando por si mesmo. Em si mesmo deve dar-se direção a estas mudanças desordenadas cujo rumo desconhecemos. 


Como os indivíduos não existem isolados, se realmente direcionam sua vida modificarão a relação com outros: na sua família, no seu trabalho e onde eles atuarem. Este não é um problema psicológico que se resolve dentro da cabeça de indivíduos isolados, mas se resolve mudando a situação em que se vive com outros, mediante um comportamento coerente. Quando festejamos sucessos ou nos deprimimos pelos nossos fracassos, quando fazemos planos a futuro ou nos propomos a introduzir mudanças em nossa vida, esquecemos o ponto fundamental: estamos em situação de relação com outros. Não podemos explicar o que nos ocorre, nem escolher, sem referência a certas pessoas e a certos âmbitos sociais concretos. Essas pessoas que têm especial importância para nós e esses âmbitos sociais nos quais vivemos nos põem em uma situação precisa desde a qual pensamos, sentimos e atuamos. Negar isto ou não levá-lo em conta cria enormes dificuldades. Nossa liberdade de escolha e ação está delimitada pela situação em que vivemos. Qualquer mudança que desejemos operar não pode ser formulada em abstrato, mas com referência à situação em que vivemos.

O comportamento coerente 


Se pudéssemos pensar, sentir e atuar na mesma direção, se o que fazemos não nos criasse contradição com o que sentimos, diríamos que nossa vida tem coerência. Seríamos confiáveis ante nós mesmos, mesmo que não necessariamente confiáveis para nosso meio imediato. Deveríamos alcançar essa mesma coerência na relação com outros tratando os demais como quiséssemos ser tratados. Sabemos que pode existir uma espécie de coerência destrutiva como observamos nos racistas, nos exploradores, nos fanáticos e nos violentos, mas está clara sua incoerência na relação porque tratam a outros de um modo muito diferente ao que desejam para si mesmos. Essa unidade de pensamento, sentimento e ação, essa unidade no trato que se pede e o trato que se dá, são ideais que não se realizam na vida diária. Este é o ponto. Trata-se de um ajuste de condutas a essas propostas, trata-se de valores que, tomados com seriedade, direcionam a vida independentemente das dificuldades que se enfrentem para realizá-los. Se observarmos bem as coisas, não estaticamente, mas em dinâmica, compreenderemos isto como uma estratégia que deve ir ganhando terreno à medida que o tempo passe. Aqui sim valem as intenções, mesmo que as ações não coincidam ao começo com elas, sobretudo se aquelas intenções são mantidas, aperfeiçoadas e ampliadas. Essas imagens do que se deseja alcançar são referências firmes que dão direção em toda situação. E isto que dizemos não é tão complicado. Não nos surpreende, por exemplo, que uma pessoa oriente sua vida para alcançar uma grande fortuna; no entanto, esta pode saber antecipadamente que não a alcançará. De todas as maneiras, seu ideal a impulsiona mesmo que não tenha resultados relevantes. Por que então, não é possível entender que, mesmo que a época seja adversa a relacionar o trato que se pede com o trato que se dá, mesmo que seja adversa a pensar, sentir e atuar na mesma direção, esses ideais de vida podem dar direção às ações humanas?

As duas propostas 


Pensar, sentir e atuar na mesma direção, e tratar a outros como desejamos ser tratados, são duas propostas tão simples que podem ser entendidas como simples ingenuidades por gente habituada às complicações. No entanto, por trás dessa aparente candura há uma nova escala de valores, em cujo ponto mais alto se põe a coerência; uma nova moral para a que não é indiferente qualquer tipo de ação; uma nova aspiração que implica sermos consequentes no esforço para dar direção aos eventos humanos. Por trás dessa aparente candura se aposta pelo sentido da vida pessoal e social que será verdadeiramente evolutivo ou marchará à desintegração. Não podemos já confiar em que velhos valores dêem coesão às pessoas em um tecido social que dia a dia se deteriora pela desconfiança, o isolamento e o individualismo crescentes. A antiga solidariedade entre os membros de classes, associações, instituições e grupos vai sendo substituída pela concorrência selvagem à qual não escapa o casal nem a irmandade familiar. Neste processo de demolição não se elevará uma nova solidariedade sobre a base de idéias e comportamentos de um mundo que se foi, mas graças à necessidade concreta de cada um de direcionar sua vida, para o qual terá que modificar seu próprio meio. Essa modificação, se for verdadeira e profunda, não pode ser posta em marcha por imposições, por leis externas ou por fanatismos de qualquer tipo, mas pelo poder da opinião e da ação mínima conjunta entre as pessoas que fazem parte do meio em que cada um vive. 

Chegar a toda a sociedade a partir do meio imediato


Sabemos que ao mudar positivamente nossa situação, estaremos influindo em nosso meio, e outras pessoas compartilharão este ponto de vista dando lugar a um sistema de relações humanas em crescimento. Teremos que nos perguntar: por que deveríamos ir além de onde começamos? Simplesmente por coerência com a proposta de tratar aos outros como queremos que nos tratem. Ou por acaso não levaríamos aos demais algo que foi fundamental para nossas vidas? Se a influência começa a desenvolver-se é porque as relações e, portanto, os componentes de nosso meio, se ampliaram. Esta é uma questão que deveríamos levar em conta desde o começo, porque ainda quando nossa ação começa aplicando-se em um ponto reduzido, a projeção dessa influência pode chegar muito longe. Não tem nada de estranho pensar que outras pessoas decidam somar-se na mesma direção. Depois de tudo, os grandes movimentos históricos seguiram o mesmo caminho: começaram pequenos, como é lógico, e se desenvolveram graças ao fato de que as pessoas os consideraram intérpretes de suas necessidades e inquietações. Atuar no meio imediato, mas com o olhar colocado no progresso da sociedade, é coerente com tudo o dito. De outro modo, para que faríamos referência a uma crise global que deve ser enfrentada resolutamente se tudo terminasse em indivíduos isolados para quem os demais não têm importância? Por necessidade de pessoas que coincidam em dar uma nova direção a sua vida e aos eventos, surgirão âmbitos de discussão e comunicação direta. Mais adiante, a difusão através de todos os meios permitirá ampliar a superfície de contato. Outro tanto ocorrerá com a criação de organismos e instituições compatíveis com este planejamento.



O meio em que se vive


Já comentamos que é tão veloz e tão inesperada a mudança, que este impacto é recebido como crise ,na qual se debatem sociedades inteiras, instituições e indivíduos. Por isso é imprescindível dar direção aos eventos. No entanto, como poderia fazê-lo cada um, submetido como está à ação de fatos maiores? É evidente que cada um pode direcionar somente aspectos imediatos de sua vida, e não o funcionamento das instituições nem da sociedade. Por outra parte, pretender dar direção à própria vida não é coisa fácil, já que cada qual vive em situação; não vive isolado, e sim em um meio. A este meio podemos vê-lo tão amplo como o Universo, a Terra, o país, o Estado, etc. No entanto, há um meio imediato que é onde desenvolvemos nossas atividades. Tal meio é o familiar, o trabalhista, o de amizades, etc. Vivemos em situação com referência a outras pessoas, e esse é o nosso mundo particular do qual não podemos prescindir. Ele atua sobre nós e nós sobre ele de um modo direto. Caso tenhamos alguma influência, é sobre esse meio imediato. Mas ocorre que tanto a influência que exercemos como a que recebemos estão afetadas, por sua vez, por situações mais gerais, pela crise e a desorientação.

A coerência como direção de vida


Se quisesse dar alguma direção aos eventos seria preciso começar pela própria vida e, para fazê-lo, teríamos que levar em conta o meio no qual atuamos. Mas a que direção podemos aspirar? Sem dúvida, à que nos proporcione coerência e apoio em um meio tão cambiante e imprevisível. Pensar, sentir e atuar na mesma direção é uma proposta de coerência na vida. No entanto, isto não é fácil porque nos encontramos em uma situação que não escolhemos completamente. Estamos fazendo coisas que necessitamos mesmo que em grande desacordo com o que pensamos e sentimos. Somos colocados em situações que não governamos. Atuar com coerência mais que um fato é uma intenção, uma tendência que podemos ter presente de maneira que nossa vida vá direcionando-se para esse tipo de comportamento. É claro que unicamente poderemos mudar parte de nossa situação, se influímos nesse meio. Ao fazê-lo, estaremos direcionando a relação com outros e outros compartilharão tal conduta. Se ao anterior se objeta que algumas pessoas mudam de meio com certa freqüência em razão de seu trabalho ou por outros motivos, responderemos que isso não modifica em nada o formulado, já que sempre se estará em situação, sempre se estará em um meio dado. Se pretendermos coerência, o trato que dermos aos demais terá que ser do mesmo gênero que o trato que exigimos para nós. Assim, nestas duas propostas encontramos os elementos básicos de direção até onde chegam nossas forças. A coerência avança conforme avança o pensar, sentir e atuar na mesma direção. Esta coerência se estende a outros, porque não há outra forma de fazê-lo, e ao estender-se a outros começamos a tratá-los do modo que queremos ser tratados. Coerência e solidariedade são direções, aspirações de condutas a alcançar.

A proporção das ações como avanço para a coerência


Como avançar em direção coerente? Em primeiro lugar, necessitaremos certa proporção no que fazemos cotidianamente. É necessário estabelecer quais são as questões mais importantes em nossa atividade. Devemos priorizar o fundamental para que as coisas funcionem, depois vermos o secundário, e assim em diante. Possivelmente ao atender a duas ou três prioridades tenhamos um bom quadro de situação. As prioridades não podem inverter-se, tampouco podem separar-se tanto que se desequilibre nossa situação. As coisas devem ir em conjunto, não isoladamente, evitando que umas se antecipem e outras se atrasem. Freqüentemente nos cegamos pela importância de uma atividade e, desta sorte, desequilibra-nos o conjunto; no fim o que considerávamos tão importante também não pode realizar-se porque nossa situação geral ficou afetada. Também é certo que às vezes se apresentam assuntos de urgência aos que devemos nos dedicar, mas é claro que não se pode viver adiando  outros que dizem respeito  ao cuidado da situação geral em que vivemos. Estabelecer prioridades e levar a atividade em proporção adequada é um avanço evidente em direção à coerência.

A oportunidade das ações como avanço para a coerência


Existe uma rotina cotidiana dada pelos horários, os cuidados pessoais e o funcionamento de nosso meio. No entanto, dentro dessas pautas há uma dinâmica e riqueza de eventos que as pessoas superficiais não sabem apreciar. Há os que confundem sua vida com suas rotinas, mas isto não é assim em absoluto já que muito freqüentemente devem escolher dentro das condições que o meio lhes impõe. A propósito, vivemos entre inconvenientes e contradições, mas convirá não confundir ambos os termos. Entendemos por “inconvenientes” às moléstias e impedimentos que enfrentamos. Não são enormemente graves, mas sem dúvida que, se são numerosos e repetidos, acrescentam a nossa irritação e fadiga. A propósito, estamos em condições de superá-los. Não determinam a direção de nossa vida nem impedem que levemos adiante um projeto, são obstáculos no caminho que vão desde a menor dificuldade física a problemas pelos quais estamos a ponto de perder o rumo. Os inconvenientes admitem uma graduação importante, mas se mantêm em um limite que não impede avançar. Algo diferente ocorre com o que chamamos «contradições». Quando nosso projeto não pode ser realizado, quando os eventos nos lançam em uma direção oposta à desejada, quando nos encontramos em um círculo vicioso que não podemos romper, quando não podemos direcionar minimamente a nossa vida, estamos tomados pela contradição. A contradição é uma sorte de investimento na correnteza da vida que nos leva a retroceder sem esperança. Estamos descrevendo o caso em que a incoerência se apresenta com maior crueza. Na contradição, o que pensamos, sentimos e fazemos se opõem entre si. Apesar de tudo, sempre há possibilidade de direcionar a vida, mas é necessário saber quando fazê-lo. A oportunidade das ações é algo que não levamos em conta na rotina cotidiana, e isto acontece porque muitas coisas estão codificadas. Mas em referência aos inconvenientes importantes e às contradições, as decisões que tomamos não podem estar expostas à catástrofe. Em termos gerais, devemos retroceder ante uma grande força e avançar com resolução quando essa força se debilitar. Há uma grande diferença entre o temeroso que retrocede ou se imobiliza ante qualquer inconveniente e o que atua sobrepondo-se às dificuldades, sabendo precisamente que avançando pode superá-las. Ocorre, às vezes, que não é possível avançar porque um problema superior a nossas forças aparece, e arremeter sem cálculo nos leva ao desastre. O grande problema que enfrentemos será também dinâmico e a relação de forças mudará, porque vamos crescendo em influência, ou porque a influência do problema diminui. Quebrada a relação anterior, é momento de proceder com resolução, já que uma indecisão ou uma postergação fará com que novamente se modifiquem os fatores. A execução da ação oportuna é a melhor ferramenta para produzir mudanças de direção.

A adaptação crescente como avanço para a coerência


Consideremos o tema da direção, da coerência que queremos alcançar. Adaptarmo-nos a certas situações está relacionado a essa proposta, porque nos adaptarmos ao que nos leva em direção oposta à coerência é uma grande incoerência. Os oportunistas padecem de uma grande miopia a respeito deste tema. Eles consideram que a melhor forma de viver é a aceitação de tudo; pensam que aceitar tudo desde que provenha de quem tem poder é uma grande adaptação, mas é claro que sua vida dependente está muito longe do que entendemos por coerência. Distinguimos entre a inadaptação, que nos impede de ampliar nossa influência, a adaptação decrescente que nos deixa na aceitação das condições estabelecidas, e a adaptação crescente que faz crescer nossa influencia em direção às propostas que viemos comentando.

Sintetizemos o dito:


1.- Há uma mudança veloz no mundo, motorizada pela revolução tecnológica, que está se chocando com as estruturas estabelecidas e com a formação e os hábitos de vida das sociedades e os indivíduos.

2.- Esta defasagem gera crises progressivas em todos os campos e não há por que supor que se deterá mas, inversamente, tenderá a se incrementar.

3.- O inesperado dos eventos impede prever que direção tomarão os fatos, as pessoas que nos rodeiam e, definitivamente, nossa própria vida.

4.- Muitas das coisas que pensávamos e achávamos já não nos servem. Também não estão à vista soluções que provenham de alguma sociedade, instituições ou indivíduos que padecem do mesmo mal.

5.- Se decidirmos trabalhar para fazer frente a estes problemas teremos que dar direção a nossa vida, buscando coerência entre o que pensamos, sentimos e fazemos. Como não estamos isolados, essa coerência terá que chegar à relação com outros, tratando-os do modo que desejamos para nós. Estas duas propostas não podem ser cumpridas rigorosamente, mas constituem a direção que necessitamos, sobretudo se as tomamos como referências permanentes e aprofundamo-nos nelas.

6.- Vivemos em relação imediata com outros, e é nesse meio onde devemos atuar para dar direção favorável a nossa situação. Esta não é uma questão psicológica, uma questão que possa ajeitar-se na cabeça isolada dos indivíduos, este é um tema relacionado com a situação em que se vive.

7.- Sendo coerentes com as propostas que tratamos de levar adiante, chegaremos à conclusão de que o positivo para nós e nosso meio imediato deve ser ampliado a toda a sociedade. Junto a outros que coincidem na mesma direção, encontraremos os meios mais adequados para que uma nova solidariedade encontre seu rumo. Por isso, ainda atuando tão especificamente em nosso meio imediato, não perderemos de vista uma situação global que afeta todos os seres humanos, e que requer nossa ajuda assim como nós necessitamos a ajuda dos demais.

8.- As mudanças inesperadas nos levam a considerar seriamente a necessidade de direcionar nossas vidas.

9.- A coerência não começa e termina em si mesmo mas está relacionada com um meio, com outras pessoas. A solidariedade é um aspecto da coerência pessoal.

10.- A proporção nas ações consiste em estabelecer prioridades de vida e operar com base nelas, evitando o desequilíbrio.

11.- A oportunidade do acionar leva em conta retroceder ante uma grande força e avançar com resolução quando esta se debilita. Esta idéia é importante aos efeitos de produzir mudanças na direção da vida se estamos submetidos à contradição.

12.- É tão inconveniente a desadaptação em um meio no qual não podemos mudar nada, como a adaptação decrescente na qual nos limitamos a aceitar as condições estabelecidas. A adaptação crescente consiste no aumento de nossa influência no meio e em direção coerente.


Bibliografia
Silo, Obras Completas, Volume I, “Cartas a meus Amigos”, Terceira carta a meus amigos.