Início Partido Humanista Lineamentos organizativos

Lineamentos organizativos

Partido Humanista Internacional

1. Idéias gerais

Nosso partido se define como Partido Humanista Internacional, porque o processo vai fundamentalmente em direção à mundialização, além da etapa intermediária de regionalização. Este partido internacional deve ter uma estratégia mundial, expressa em objetivos, planejamentos, campanhas e posicionamentos em escala internacional. Nesse sentido, os partidos nacionais, dentro de seu amplo grau de autonomia para desenvolver-se em cada país, farão parte de uma Federação Internacional de Partidos Humanistas, participando dos planejamentos e ações conjuntas.

Será assegurada a participação de todos os membros do partido na tomada de decisões, mediante a prática da democracia direta em todos os níveis.

As frentes de ação orientadas para conflitos sociais, que trabalham inseridas na orgânica do partido, contribuirão para seu crescimento. Nesse sentido, será fundamental contar com uma organização dinâmica, aberta, participativa e motivadora, que facilite a inclusão de muita gente, sobretudo de jovens, de mulheres, de quadros técnicos e de líderes sociais, no marco de um projeto político de alto nível.

A sustentação econômica das atividades conjuntas deve surgir da contribuição de seus membros.

O núcleo organizativo básico do organismo serão as Equipes de Base que atuam em determinado bairro, município, centro educacional ou âmbito trabalhista. É a partir dessa base que o partido pode se organizar e se desenvolver.

O Partido Humanista se organizará em todos os níveis, de acordo com esses critérios, com a correspondente adequação às normas legais de cada país.

 

2. Participação: membros plenos e aderentes

Um membro pleno é aquele que genuinamente se interessa pelo trabalho no partido, conhece e está de acordo com suas teses e bases de ação política, participa de alguma atividade ou função, e difunde as propostas e idéias do partido. É um militante que vela pelo desenvolvimento do partido e contribui para seu financiamento, contribuindo com a cota anual estabelecida em cada país.

Um membro aderente não assume compromissos, participa ocasionalmente e recebe informação.

Somente os membros plenos têm direito de participar dos processos eleitorais internos, tanto para elegerem quanto para serem eleitos, e de participar das consultas feitas ao Partido para a tomada de decisões relevantes.

 

3. As equipes de base

São a estrutura básica do partido. Seus membros se aplicam em uma frente de ação, agindo sobre algum conflito, no nível vicinal ou municipal, universidades, âmbitos trabalhistas, etc. e através desse trabalho contatam as pessoas, somam aderentes, mobilizam, esclarecem, debatem, exigem das autoridades e promovem ações concretas. Também trabalham em funções necessárias para o conjunto e se ocupam de obter e manter o nível de adesões e filiações necessárias para manter a personalidade jurídica no distrito em que trabalham. Em períodos eleitorais, elaboram propostas locais, ocupam-se da conformação de candidaturas e realizam propaganda partidária.

Essas equipes podem ser formadas a partir da iniciativa de uma ou mais pessoas, por isso a referência dessa equipe começa sendo quem a formou, mas a partir de certo desenvolvimento a escolha do enlace dessa equipe com as outras instâncias do partido deve também submeter-se à votação.

Se alguém coloca em marcha várias equipes, ou de uma equipe original se multiplicam outras novas, possivelmente poderá existir certa referenciação dos mesmos com quem ajudou a colocá-las em andamento, mas não haverá uma relação orgânica com mais de uma equipe.

Cada equipe será formada por determinado número de membros plenos, que serão aqueles filiados ao partido que contribuem com sua cota anual, e os mesmos terão direito a escolher mediante voto direto não somente o enlace dessa equipe, mas também as diversas funções em nível nacional e internacional, e decidir também mediante o voto a respeito de temas relevantes para o partido.

Cada equipe poderá ter, além disso, uma grande quantidade de aderentes e colaboradores (filiados ou não), como consequência de sua ação permanente no meio, mas somente os membros plenos poderão participar das decisões do partido e nas funções que se julguem necessárias.

 

4. Equipe de coordenação nacional

Terá sob sua responsabilidade o planejamento e impulso das estratégias políticas nacionais, assim como a coordenação da realização das atividades internacionais em cada país. Será encarregada de dar um marco estratégico comum para todas as frentes de ação do partido, gerando âmbitos de intercâmbio e coordenação dos mesmos para potencializar seu crescimento e multiplicação.

Cobrirá todas as funções no âmbito nacional (Secretaria General, Organização, Relações, Imprensa, Capacitação, Difusão, Legais, etc.), com pessoas que tenham sido eleitas por voto direto dos membros plenos. Para ter um funcionamento mais dinâmico, será recomendável que entre todas as funções haja uma tríade de coordenação, que possa também resolver certos temas, sem burocracias deliberativas. Realizará a análise da situação nacional e elaborará posicionamentos nesse nível.

Administrará os fundos que correspondam ao nível nacional, de acordo com prioridades e critérios acordados no marco de um planejamento geral pelos dois anos de duração de sua gestão. Informará amplamente sobre o destino desses fundos.

Manterá as relações com outros partidos em nível nacional, eventuais relações com o governo ou outras organizações. Estará em permanente contato com a orgânica do partido internacional para a aplicação de estratégias mundiais.

 

5. Instâncias intermediárias dentro de um país

A princípio, não serão criadas internamente outras instâncias organizativas, já que tudo será planificado ou implementado através das equipes de base, em coordenação com a planificação da equipe nacional.

Se, devido a requisitos legais e divisões administrativas de cada país, forem necessários níveis intermédios de organização (municipais, departamentais, provinciais, regionais, estaduais, etc.), esses níveis intermediários serão, do ponto de vista interno, funções ad-hoc para dar resposta a tais particularidades, mas não conformarão níveis decisórios.

Em cada país, será possível avaliar se, por um grande crescimento quantitativo e geográfico do partido, tornam-se necessários os níveis decisórios intermediários.

 

 

6. Orgânica Internacional

O Partido Humanista Internacional estará constituído sob a forma de Federação de Partidos Humanistas. Estará coordenado por uma Equipe Internacional, eleito por voto direto dos membros plenos de todos os países membros, assegurando a participação das minorias.

A partir dessa orgânica internacional, circulará a informação em nível mundial, serão promovidas campanhas sobre temáticas mundiais, será planejado o desenvolvimento do partido em regiões ou países onde não esteja e se poderá definir o apoio a algum país em determinadas conjunturas. Também será realizada a análise da situação mundial e serão elaborados posicionamentos para o âmbito internacional, que em muitos casos também servirão aos âmbitos nacionais.

Independentemente dos requisitos legais em cada país para a obtenção de personalidade jurídica, poderão se incluir na federação aqueles partidos nacionais que contem com certas condições mínimas de organização, estabelecidas pela Junta Promotora.

Além dos partidos humanistas nacionais que integrem organicamente a federação, será dada especial importância ao âmbito da Internacional Humanista, como espaço (não orgânico) de convergência de outros partidos, organizações e pessoas que aderem às propostas humanistas. Esse espaço de convergência, impulsionado pelo Partido Humanista Internacional, mas aberto a uma ampla participação, poderá organizar fóruns internacionais, encontros e todo tipo de intercâmbio.

 

7. Enlace entre os três níveis

No esquema internacional de uma Federação de Partidos Humanistas, cada partido nacional será autônomo em sua planificação nacional, mas em coincidência com uma estratégia mundial. Por sua vez, o esquema nacional será o de equipes de base com autonomia para a implementação de atividades, mas coordenando-se em um âmbito e uma planificação nacional.

A eleição direta das funções nos três níveis, por parte dos membros plenos, assegurará que a direção geral seja a que a maioria dos membros apóie.

Os partidos de cada país estarão articulados com a orgânica internacional através de seu enlace com a Orgânica Internacional. As Equipes de Base estarão articuladas com a Equipe Nacional através do enlace de cada Equipe de Base.

8. Financiamento

O partido deve se financiar para o sustento de suas atividades em todos os seus níveis, com a contribuição de todos os seus membros plenos. Para isso, será realizada uma coleta anual em que cada membro deverá contribuir com um montante, de acordo com o salário médio do país em que vive, ficando a cargo da equipe promotora de cada país a determinação de tal montante. Os fundos reunidos serão distribuídos entre o nível de base, o nível nacional e o nível internacional, em uma proporção estabelecida pela Equipe Promotora Mundial.

Para reunir fundos para outras eventualidades, poderão ser realizadas campanhas informais em cada lugar, nas quais poderão participar também os aderentes. Nesses casos, em cada lugar será estabelecido o montante dessa campanha (nunca maior que o da campanha anual) e os fundos serão aplicados localmente.

O pagamento da cota anual será requisito para que o afiliado tenha direito de votar e participar das decisões do partido.

Nos países em que o partido receba fundos do Estado, tais recursos não serão destinados ao funcionamento interno do partido, para não criar dependência do Estado. Em cada país, se avaliará, de acordo com a legislação vigente, se tais recursos externos podem ser destinados como um todo a difusão ou a campanhas eleitorais.

As Equipes Promotoras elaborarão os procedimentos adequados para assegurar o uso correto dos fundos com base em orçamentos prévios e a circulação da informação do que se faz com eles, além de prestação de contas anual.

 

9. Frentes e alianças eleitorais

Será importante para o desenvolvimento e posicionamento dos Partidos Humanistas, fortalecer a identidade dos mesmos. No entanto, se em algum caso se considere a possibilidade de realizar uma aliança eleitoral, a decisão deverá estar sujeita ao apoio da maioria dos membros plenos, por isso deverá ser referendada em uma eleição direta.

De todos os modos, qualquer aliança eleitoral sempre deverá estar enquadrada dentro de certos parâmetros ideológicos e de princípios afins ao Humanismo Universalista. Qualquer exceção a isso que pudesse afetar o conjunto poderá ser impugnada pelo nível superior. Isso significa que, uma aliança municipal, provincial ou departamental com uma força que se opõe a nossos princípios poderá ser revista e impugnada pela Equipe Nacional. E o mesmo ocorreria com uma aliança em um nível nacional, que poderá ser avaliada e impugnada pela Equipe Internacional.

 

10. Candidatos eleitos

Dentro da planificação dos partidos, as campanhas eleitorais ganham vital importância, já que é através delas que se pode obter um maior posicionamento.

No caso em que um candidato humanista seja eleito, deve existir um plano acordado previamente sobre como se vai trabalhar em conjunto em torno da gestão desse candidato eleito. E tanto a atividade do candidato eleito quanto a atividade das equipes que trabalhem com ele devem se realizadas de acordo com esse plano, com a necessária autonomia operativa que se requer na ação cotidiana.

As Equipes Promotoras poderão avaliar se incluirão algum requisito de antiguidade na filiação para poder apresentar-se como candidato em determinados níveis.

O principal interesse desses candidatos eleitos deverá ser o de produzir efeitos demonstração e o de mostrar condutas exemplares, em contraposição à mediocridade e ao oportunismo que reina na política tradicional.

 

11. Recomendações para a nova etapa

É recomendável que, no início dessa nova etapa, a coordenação mundial esteja a cargo de uma Equipe Promotora Mundial[1] de aproximadamente 10 membros. Esses provirão da Comissão que elaborou o presente documento e poderão somar-se outras pessoas que esta Comissão considere conveniente. Ela deixará de funcionar ao constituírem-se as equipes de coordenação depois das eleições.

 

12. Procedimentos

Tanto para a eleição de funções em diferentes níveis do partido quanto para a tomada de decisões relevantes que comprometem o conjunto, serão utilizados mecanismos de democracia direta, empregando também a tecnologia informática nos casos em que se possa assegurar a viabilidade de participação de todos os membros.

Todos os cargos serão eletivos e renováveis. As Equipes Promotoras poderão avaliar possíveis limitações à reeleição nos cargos. Na Orgânica Internacional e Nacional, os cargos se renovarão a cada dois anos e, nas Equipes de Base, todos os anos.

Todos os cargos serão eleitos por voto direto dos membros plenos. O enlace de uma Equipe de Base será eleito por todos os membros plenos dessa equipe. Os cargos da Equipe Nacional deverão ser eleitos por todos os membros plenos de cada país. As funções ad-hoc, necessárias para atender requerimentos legais ou eleitorais de divisões geográficas nos países, deveriam ser eleitas pelos membros plenos do nível que corresponda. Os cargos da Equipe Internacional devem ser eleitos pelos membros plenos de todos os países. E devem eleger-se da mesma maneira os porta-vozes e candidatos para eleições de cargos públicos.

As Equipes Promotoras elaborarão os detalhes do procedimento eleitoral para assegurar a transparência dos mesmos, a participação efetiva dos membros plenos e a inclusão de minorias na distribuição de cargos.

O armado da estrutura partidária integral se dará da base para cima, e não ao contrário. Primeiro, irai se formando as equipes promotoras de base e logo estas irão se articulando até formar as equipes promotoras nacionais. Uma vez realizado isso, serão realizadas eleições internas nas quais serão eleitos todos os cargos em todos os níveis.

 

 --------------------------------------------------------------------------------

[1] Ficam a cargo dessa Equipe a definição dos detalhes de implementação, como calendários com datas das campanhas econômicas e eleições, parâmetros para a definição do montante da contribuição anual, distribuição por níveis de coordenação desses recursos, funções específicas das Equipes Promotoras Mundiais, determinação do logotipo oficial, etc
 

Notas Internacionais


Warning: file_put_contents(/home/httpd/vhosts/movimentohumanista.org/httpdocs/cache/ac6a2179a742ed1b110d61ed2a000aec.spc) [function.file-put-contents]: failed to open stream: Permission denied in /home/httpd/vhosts/movimentohumanista.org/httpdocs/libraries/simplepie/simplepie.php on line 7219

Warning: /home/httpd/vhosts/movimentohumanista.org/httpdocs/cache/ac6a2179a742ed1b110d61ed2a000aec.spc is not writeable in /home/httpd/vhosts/movimentohumanista.org/httpdocs/libraries/simplepie/simplepie.php on line 1511
© 2018 Movimento Humanista - Internacional This is a free Joomla-Template from funky-visions.de

A MUDANÇA E A CRISE

(Com base na Carta III, do Livro “Cartas a Meus Amigos”)


Nesta época de grande mudança estão em crises os indivíduos, as instituições e a sociedade. A mudança será cada vez mais rápida e também as crises individuais, institucionais e sociais. Isto anuncia perturbações que talvez não sejam assimiladas por amplos setores humanos.


As transformações que estão ocorrendo tomam direções inesperadas, produzindo desorientação geral a respeito do futuro e do que se deve fazer no presente. Na realidade não é a mudança o que nos perturba, já que nela observamos muitos aspectos positivos. O que nos inquieta é não saber em que direção vai a mudança, e para onde orientar nossa atividade.


A mudança está ocorrendo na economia, na tecnologia e na sociedade; sobretudo está operando em nossas vidas: em nosso meio familiar e trabalhista, em nossas relações de amizade. Estão se modificando nossas idéias e o que acreditávamos sobre o mundo, sobre as demais pessoas e sobre nós mesmos. Muitas coisas nos estimulam, mas outras nos confundem e paralisam. O comportamento dos demais e o próprio nos parecem incoerentes, contraditórios e sem direção clara, tal como ocorre com os eventos que nos rodeiam.


Portanto, é fundamental dar direção a essa mudança inevitável, e não há outra forma de fazê-lo a não ser começando por si mesmo. Em si mesmo deve dar-se direção a estas mudanças desordenadas cujo rumo desconhecemos. 


Como os indivíduos não existem isolados, se realmente direcionam sua vida modificarão a relação com outros: na sua família, no seu trabalho e onde eles atuarem. Este não é um problema psicológico que se resolve dentro da cabeça de indivíduos isolados, mas se resolve mudando a situação em que se vive com outros, mediante um comportamento coerente. Quando festejamos sucessos ou nos deprimimos pelos nossos fracassos, quando fazemos planos a futuro ou nos propomos a introduzir mudanças em nossa vida, esquecemos o ponto fundamental: estamos em situação de relação com outros. Não podemos explicar o que nos ocorre, nem escolher, sem referência a certas pessoas e a certos âmbitos sociais concretos. Essas pessoas que têm especial importância para nós e esses âmbitos sociais nos quais vivemos nos põem em uma situação precisa desde a qual pensamos, sentimos e atuamos. Negar isto ou não levá-lo em conta cria enormes dificuldades. Nossa liberdade de escolha e ação está delimitada pela situação em que vivemos. Qualquer mudança que desejemos operar não pode ser formulada em abstrato, mas com referência à situação em que vivemos.

O comportamento coerente 


Se pudéssemos pensar, sentir e atuar na mesma direção, se o que fazemos não nos criasse contradição com o que sentimos, diríamos que nossa vida tem coerência. Seríamos confiáveis ante nós mesmos, mesmo que não necessariamente confiáveis para nosso meio imediato. Deveríamos alcançar essa mesma coerência na relação com outros tratando os demais como quiséssemos ser tratados. Sabemos que pode existir uma espécie de coerência destrutiva como observamos nos racistas, nos exploradores, nos fanáticos e nos violentos, mas está clara sua incoerência na relação porque tratam a outros de um modo muito diferente ao que desejam para si mesmos. Essa unidade de pensamento, sentimento e ação, essa unidade no trato que se pede e o trato que se dá, são ideais que não se realizam na vida diária. Este é o ponto. Trata-se de um ajuste de condutas a essas propostas, trata-se de valores que, tomados com seriedade, direcionam a vida independentemente das dificuldades que se enfrentem para realizá-los. Se observarmos bem as coisas, não estaticamente, mas em dinâmica, compreenderemos isto como uma estratégia que deve ir ganhando terreno à medida que o tempo passe. Aqui sim valem as intenções, mesmo que as ações não coincidam ao começo com elas, sobretudo se aquelas intenções são mantidas, aperfeiçoadas e ampliadas. Essas imagens do que se deseja alcançar são referências firmes que dão direção em toda situação. E isto que dizemos não é tão complicado. Não nos surpreende, por exemplo, que uma pessoa oriente sua vida para alcançar uma grande fortuna; no entanto, esta pode saber antecipadamente que não a alcançará. De todas as maneiras, seu ideal a impulsiona mesmo que não tenha resultados relevantes. Por que então, não é possível entender que, mesmo que a época seja adversa a relacionar o trato que se pede com o trato que se dá, mesmo que seja adversa a pensar, sentir e atuar na mesma direção, esses ideais de vida podem dar direção às ações humanas?

As duas propostas 


Pensar, sentir e atuar na mesma direção, e tratar a outros como desejamos ser tratados, são duas propostas tão simples que podem ser entendidas como simples ingenuidades por gente habituada às complicações. No entanto, por trás dessa aparente candura há uma nova escala de valores, em cujo ponto mais alto se põe a coerência; uma nova moral para a que não é indiferente qualquer tipo de ação; uma nova aspiração que implica sermos consequentes no esforço para dar direção aos eventos humanos. Por trás dessa aparente candura se aposta pelo sentido da vida pessoal e social que será verdadeiramente evolutivo ou marchará à desintegração. Não podemos já confiar em que velhos valores dêem coesão às pessoas em um tecido social que dia a dia se deteriora pela desconfiança, o isolamento e o individualismo crescentes. A antiga solidariedade entre os membros de classes, associações, instituições e grupos vai sendo substituída pela concorrência selvagem à qual não escapa o casal nem a irmandade familiar. Neste processo de demolição não se elevará uma nova solidariedade sobre a base de idéias e comportamentos de um mundo que se foi, mas graças à necessidade concreta de cada um de direcionar sua vida, para o qual terá que modificar seu próprio meio. Essa modificação, se for verdadeira e profunda, não pode ser posta em marcha por imposições, por leis externas ou por fanatismos de qualquer tipo, mas pelo poder da opinião e da ação mínima conjunta entre as pessoas que fazem parte do meio em que cada um vive. 

Chegar a toda a sociedade a partir do meio imediato


Sabemos que ao mudar positivamente nossa situação, estaremos influindo em nosso meio, e outras pessoas compartilharão este ponto de vista dando lugar a um sistema de relações humanas em crescimento. Teremos que nos perguntar: por que deveríamos ir além de onde começamos? Simplesmente por coerência com a proposta de tratar aos outros como queremos que nos tratem. Ou por acaso não levaríamos aos demais algo que foi fundamental para nossas vidas? Se a influência começa a desenvolver-se é porque as relações e, portanto, os componentes de nosso meio, se ampliaram. Esta é uma questão que deveríamos levar em conta desde o começo, porque ainda quando nossa ação começa aplicando-se em um ponto reduzido, a projeção dessa influência pode chegar muito longe. Não tem nada de estranho pensar que outras pessoas decidam somar-se na mesma direção. Depois de tudo, os grandes movimentos históricos seguiram o mesmo caminho: começaram pequenos, como é lógico, e se desenvolveram graças ao fato de que as pessoas os consideraram intérpretes de suas necessidades e inquietações. Atuar no meio imediato, mas com o olhar colocado no progresso da sociedade, é coerente com tudo o dito. De outro modo, para que faríamos referência a uma crise global que deve ser enfrentada resolutamente se tudo terminasse em indivíduos isolados para quem os demais não têm importância? Por necessidade de pessoas que coincidam em dar uma nova direção a sua vida e aos eventos, surgirão âmbitos de discussão e comunicação direta. Mais adiante, a difusão através de todos os meios permitirá ampliar a superfície de contato. Outro tanto ocorrerá com a criação de organismos e instituições compatíveis com este planejamento.



O meio em que se vive


Já comentamos que é tão veloz e tão inesperada a mudança, que este impacto é recebido como crise ,na qual se debatem sociedades inteiras, instituições e indivíduos. Por isso é imprescindível dar direção aos eventos. No entanto, como poderia fazê-lo cada um, submetido como está à ação de fatos maiores? É evidente que cada um pode direcionar somente aspectos imediatos de sua vida, e não o funcionamento das instituições nem da sociedade. Por outra parte, pretender dar direção à própria vida não é coisa fácil, já que cada qual vive em situação; não vive isolado, e sim em um meio. A este meio podemos vê-lo tão amplo como o Universo, a Terra, o país, o Estado, etc. No entanto, há um meio imediato que é onde desenvolvemos nossas atividades. Tal meio é o familiar, o trabalhista, o de amizades, etc. Vivemos em situação com referência a outras pessoas, e esse é o nosso mundo particular do qual não podemos prescindir. Ele atua sobre nós e nós sobre ele de um modo direto. Caso tenhamos alguma influência, é sobre esse meio imediato. Mas ocorre que tanto a influência que exercemos como a que recebemos estão afetadas, por sua vez, por situações mais gerais, pela crise e a desorientação.

A coerência como direção de vida


Se quisesse dar alguma direção aos eventos seria preciso começar pela própria vida e, para fazê-lo, teríamos que levar em conta o meio no qual atuamos. Mas a que direção podemos aspirar? Sem dúvida, à que nos proporcione coerência e apoio em um meio tão cambiante e imprevisível. Pensar, sentir e atuar na mesma direção é uma proposta de coerência na vida. No entanto, isto não é fácil porque nos encontramos em uma situação que não escolhemos completamente. Estamos fazendo coisas que necessitamos mesmo que em grande desacordo com o que pensamos e sentimos. Somos colocados em situações que não governamos. Atuar com coerência mais que um fato é uma intenção, uma tendência que podemos ter presente de maneira que nossa vida vá direcionando-se para esse tipo de comportamento. É claro que unicamente poderemos mudar parte de nossa situação, se influímos nesse meio. Ao fazê-lo, estaremos direcionando a relação com outros e outros compartilharão tal conduta. Se ao anterior se objeta que algumas pessoas mudam de meio com certa freqüência em razão de seu trabalho ou por outros motivos, responderemos que isso não modifica em nada o formulado, já que sempre se estará em situação, sempre se estará em um meio dado. Se pretendermos coerência, o trato que dermos aos demais terá que ser do mesmo gênero que o trato que exigimos para nós. Assim, nestas duas propostas encontramos os elementos básicos de direção até onde chegam nossas forças. A coerência avança conforme avança o pensar, sentir e atuar na mesma direção. Esta coerência se estende a outros, porque não há outra forma de fazê-lo, e ao estender-se a outros começamos a tratá-los do modo que queremos ser tratados. Coerência e solidariedade são direções, aspirações de condutas a alcançar.

A proporção das ações como avanço para a coerência


Como avançar em direção coerente? Em primeiro lugar, necessitaremos certa proporção no que fazemos cotidianamente. É necessário estabelecer quais são as questões mais importantes em nossa atividade. Devemos priorizar o fundamental para que as coisas funcionem, depois vermos o secundário, e assim em diante. Possivelmente ao atender a duas ou três prioridades tenhamos um bom quadro de situação. As prioridades não podem inverter-se, tampouco podem separar-se tanto que se desequilibre nossa situação. As coisas devem ir em conjunto, não isoladamente, evitando que umas se antecipem e outras se atrasem. Freqüentemente nos cegamos pela importância de uma atividade e, desta sorte, desequilibra-nos o conjunto; no fim o que considerávamos tão importante também não pode realizar-se porque nossa situação geral ficou afetada. Também é certo que às vezes se apresentam assuntos de urgência aos que devemos nos dedicar, mas é claro que não se pode viver adiando  outros que dizem respeito  ao cuidado da situação geral em que vivemos. Estabelecer prioridades e levar a atividade em proporção adequada é um avanço evidente em direção à coerência.

A oportunidade das ações como avanço para a coerência


Existe uma rotina cotidiana dada pelos horários, os cuidados pessoais e o funcionamento de nosso meio. No entanto, dentro dessas pautas há uma dinâmica e riqueza de eventos que as pessoas superficiais não sabem apreciar. Há os que confundem sua vida com suas rotinas, mas isto não é assim em absoluto já que muito freqüentemente devem escolher dentro das condições que o meio lhes impõe. A propósito, vivemos entre inconvenientes e contradições, mas convirá não confundir ambos os termos. Entendemos por “inconvenientes” às moléstias e impedimentos que enfrentamos. Não são enormemente graves, mas sem dúvida que, se são numerosos e repetidos, acrescentam a nossa irritação e fadiga. A propósito, estamos em condições de superá-los. Não determinam a direção de nossa vida nem impedem que levemos adiante um projeto, são obstáculos no caminho que vão desde a menor dificuldade física a problemas pelos quais estamos a ponto de perder o rumo. Os inconvenientes admitem uma graduação importante, mas se mantêm em um limite que não impede avançar. Algo diferente ocorre com o que chamamos «contradições». Quando nosso projeto não pode ser realizado, quando os eventos nos lançam em uma direção oposta à desejada, quando nos encontramos em um círculo vicioso que não podemos romper, quando não podemos direcionar minimamente a nossa vida, estamos tomados pela contradição. A contradição é uma sorte de investimento na correnteza da vida que nos leva a retroceder sem esperança. Estamos descrevendo o caso em que a incoerência se apresenta com maior crueza. Na contradição, o que pensamos, sentimos e fazemos se opõem entre si. Apesar de tudo, sempre há possibilidade de direcionar a vida, mas é necessário saber quando fazê-lo. A oportunidade das ações é algo que não levamos em conta na rotina cotidiana, e isto acontece porque muitas coisas estão codificadas. Mas em referência aos inconvenientes importantes e às contradições, as decisões que tomamos não podem estar expostas à catástrofe. Em termos gerais, devemos retroceder ante uma grande força e avançar com resolução quando essa força se debilitar. Há uma grande diferença entre o temeroso que retrocede ou se imobiliza ante qualquer inconveniente e o que atua sobrepondo-se às dificuldades, sabendo precisamente que avançando pode superá-las. Ocorre, às vezes, que não é possível avançar porque um problema superior a nossas forças aparece, e arremeter sem cálculo nos leva ao desastre. O grande problema que enfrentemos será também dinâmico e a relação de forças mudará, porque vamos crescendo em influência, ou porque a influência do problema diminui. Quebrada a relação anterior, é momento de proceder com resolução, já que uma indecisão ou uma postergação fará com que novamente se modifiquem os fatores. A execução da ação oportuna é a melhor ferramenta para produzir mudanças de direção.

A adaptação crescente como avanço para a coerência


Consideremos o tema da direção, da coerência que queremos alcançar. Adaptarmo-nos a certas situações está relacionado a essa proposta, porque nos adaptarmos ao que nos leva em direção oposta à coerência é uma grande incoerência. Os oportunistas padecem de uma grande miopia a respeito deste tema. Eles consideram que a melhor forma de viver é a aceitação de tudo; pensam que aceitar tudo desde que provenha de quem tem poder é uma grande adaptação, mas é claro que sua vida dependente está muito longe do que entendemos por coerência. Distinguimos entre a inadaptação, que nos impede de ampliar nossa influência, a adaptação decrescente que nos deixa na aceitação das condições estabelecidas, e a adaptação crescente que faz crescer nossa influencia em direção às propostas que viemos comentando.

Sintetizemos o dito:


1.- Há uma mudança veloz no mundo, motorizada pela revolução tecnológica, que está se chocando com as estruturas estabelecidas e com a formação e os hábitos de vida das sociedades e os indivíduos.

2.- Esta defasagem gera crises progressivas em todos os campos e não há por que supor que se deterá mas, inversamente, tenderá a se incrementar.

3.- O inesperado dos eventos impede prever que direção tomarão os fatos, as pessoas que nos rodeiam e, definitivamente, nossa própria vida.

4.- Muitas das coisas que pensávamos e achávamos já não nos servem. Também não estão à vista soluções que provenham de alguma sociedade, instituições ou indivíduos que padecem do mesmo mal.

5.- Se decidirmos trabalhar para fazer frente a estes problemas teremos que dar direção a nossa vida, buscando coerência entre o que pensamos, sentimos e fazemos. Como não estamos isolados, essa coerência terá que chegar à relação com outros, tratando-os do modo que desejamos para nós. Estas duas propostas não podem ser cumpridas rigorosamente, mas constituem a direção que necessitamos, sobretudo se as tomamos como referências permanentes e aprofundamo-nos nelas.

6.- Vivemos em relação imediata com outros, e é nesse meio onde devemos atuar para dar direção favorável a nossa situação. Esta não é uma questão psicológica, uma questão que possa ajeitar-se na cabeça isolada dos indivíduos, este é um tema relacionado com a situação em que se vive.

7.- Sendo coerentes com as propostas que tratamos de levar adiante, chegaremos à conclusão de que o positivo para nós e nosso meio imediato deve ser ampliado a toda a sociedade. Junto a outros que coincidem na mesma direção, encontraremos os meios mais adequados para que uma nova solidariedade encontre seu rumo. Por isso, ainda atuando tão especificamente em nosso meio imediato, não perderemos de vista uma situação global que afeta todos os seres humanos, e que requer nossa ajuda assim como nós necessitamos a ajuda dos demais.

8.- As mudanças inesperadas nos levam a considerar seriamente a necessidade de direcionar nossas vidas.

9.- A coerência não começa e termina em si mesmo mas está relacionada com um meio, com outras pessoas. A solidariedade é um aspecto da coerência pessoal.

10.- A proporção nas ações consiste em estabelecer prioridades de vida e operar com base nelas, evitando o desequilíbrio.

11.- A oportunidade do acionar leva em conta retroceder ante uma grande força e avançar com resolução quando esta se debilita. Esta idéia é importante aos efeitos de produzir mudanças na direção da vida se estamos submetidos à contradição.

12.- É tão inconveniente a desadaptação em um meio no qual não podemos mudar nada, como a adaptação decrescente na qual nos limitamos a aceitar as condições estabelecidas. A adaptação crescente consiste no aumento de nossa influência no meio e em direção coerente.


Bibliografia
Silo, Obras Completas, Volume I, “Cartas a meus Amigos”, Terceira carta a meus amigos.